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Críticas

Bacurau

30 set 19 6 mins. de leitura
por Ricardo Vergueiro

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Título Bacurau
País Brasil
Classificação 16 anos
Duração 132 mins.
Elenco Sônia Braga (Domingas), Udo Kier (Michael), Barbara Colen (Teresa), Karine Teles (Foreigner), Thomas Aquino (Pacote), Silvério Pereira (Lunga), Wilson Rabelo (Plínio), Luciana Souza (Isa).
Direção Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho
Gêneros Drama
Ano 2019
Em um futuro próximo, uma pequena cidade no sertão nordestino lamenta a morte de uma anciã. Dias depois, os moradores percebem que o local sumiu dos mapas e começam a ser aterrorizados por uma onda de assassinatos misteriosos.

O assunto hoje é a sensação que vem atraindo os olhares internacionais para as telas brasileiras. O longa-metragem Bacurau, dirigido por Juliano Dornelles em parceria com Kleber Mendonça Filho, vem colecionando prêmios mundo afora, como o Festival de Cannes (prêmio do júri) e o Festival de Cinema de Munique (melhor filme). Para saber mais, continue lendo!

Bacurau estreou no final de agosto em versões dubladas e legendadas, com a dupla intenção, segundo os diretores, de mirar as salas internacionais e de dar aos filmes um “ar” de matinê. A decisão foi criticada por muitos que acharam as legendas em descompasso com a fala nordestina dos personagens – a versão que vi foi legendada e devo concordar com as reclamações.

O filme conta a história de um povoado do sertão que simplesmente desaparece dos mapas. Não há internet nem telefones. A população fica totalmente isolada sem qualquer tipo de comunicação. Daí para frente, eventos estranhos e uma onda de terror começam a varrer o vilarejo, obrigando a população a inflamar sua brutalidade para proteger-se de uma ameaça ao mesmo tempo real e bizarra.

© Material de divulgação passível de direitos autorais.

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Teresa (Bárbara Colen) regressa ao vilarejo onde nasceu, o que coincide com a morte da matriarca e anciã da região, Carmelita (Lia de Itamaracá). As cenas iniciais dão o mote para a denúncia de horrores nacionais que estão muito longe da ficção: carências diversas, falta de água e outros recursos. A partir do enterro de Carmelita, o realismo mágico então assume o controle da trama – inclusive lembrei de trechos de Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez.

O filme está repleto de violência e evoca as produções de cangaceiros da década de 1960. O embate com os criminosos ajuda na criação desse clima de “bang-bang”. As referências estéticas, porém, não param por aí. Como num thriller de Quentin Tarantino, o filme de Mendonça e Dornelles mistura suspense, terror, ficção científica, tecnologias à lá Black Mirror e até spaghetti western – subgênero de faroeste italiano, sucesso nos anos de 1960.

 A violência no filme tem a preocupação de mostrar que ela machuca, não é bonita. O final do filme é extremamente triste, eu diria. Essa tristeza, é claro, vem com uma ideia de vitória, de uma sobrevivência, mas ela é triste. – Kleber Mendonça Filho, diretor.

Em tempos de acirramentos político e ações autoritárias que se procriam em todas as esferas de governo (vide o recente caso de censura na Bienal do Livro no Rio), seria inevitável que o filme se tornasse uma bandeira de protesto e repúdio. Apesar disso, os realizadores garantiram em coletivas de lançamento que o roteiro já estava pronto muito antes dos atuais governantes tomarem posse.

A gente captou uma energia, um estado de espírito do Brasil. Na verdade é sobre o Brasil e todos os problemas que enfrentamos, e parece sempre querer enfrentar, como se o país estivesse patinando nos mesmos problemas, como uma poça de óleo, e não consegue ficar de pé. Muito do futurismo do filme é passado, corrupção, violência, falta de respeito, falta de educação, problema da água no sertão. – Kleber Mendonça Filho

 Entre os vários toques do já citado realismo mágico, há uma espécie de droga mística que dá ao povo de Bacurau o estranho poder de não se amedrontar frente aos inimigos. Para combater os assassinos, pessoas pacatas tornam-se tão implacáveis quanto seus perseguidores. O que subsiste por trás desses elementos fantásticos é uma radiografia atualizada dos dramas atemporais do Nordeste. A crueza do cenário – as cenas foram gravadas no Sertão do Seridó, entre a Paraíba e o Rio Grande do Norte – reforça toda a brutalidade.

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O roteiro de Bacurau, assinado também pela dupla de diretores, é criativo e bem amarrado – talvez um tanto inflacionado, como veremos mais adiante. Mas o que dizer da fotografia, montagem e trilha sonora? Simplesmente incríveis!

A força maior do filme, no entanto, talvez esteja no elenco. É graças à entrega e engajamento dos atores à mensagem da obra que o resultado – para o bem e para o mal – adquire tons panfletários; para o “mal”, penso eu, porque tamanha contundência no protesto, embora compreensível dado o cenário político atual, deixará de legado ao futuro um filme um tanto maniqueísta.

A atriz Sonia Braga, de 69 anos, dá um show à parte no papel de Domingas, uma personagem perturbada e de caráter muito ambíguo (uma chave de sua profundidade psicológica está na maneira como ela projeta sua raiva e frustração sobre a imagem da “anciã-celebridade” do povoado, Carmelita). Muito longe de querer evocar seu passado mítico de sex symbol, a atriz desponta nas telas como uma idosa de cabelos brancos e alma sofrida. Em Cannes, Sônia Braga aproveitou para dedicar o filme à Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro assassinada em março de 2018.

Conheci Marielle num debate sobre violência na época da Intervenção Militar no Rio. Fiquei impressionada. Ela contava o que estava acontecendo e dizia: ‘O importante é que a gente continue vivo.’ Quinze dias depois, vem a notícia de sua morte quando filmávamos Bacurau. – Sônia Braga.

Silvério Pereira é outro destaque na interpretação do foragido Lunga, que ele encarna com um carisma espantoso. A história de Lunga é outra que está longe de ser “plana” ou simples de dimensionar. Suas razões e motivações deslizam todas sobre o fio de navalha de sua vida pessoal: a condição de ser ao mesmo tempo bandeado e celebrizado pela população local.

Uma surpresa para mim foi o ator alemão Udo Kier no papel do assassino Michael. Apesar do apelo de filme blockbuster que sua presença poderia sugerir, ele soube dar o recado sem os clichês de Hollywood, com aquela típica afetação dos vilões de frases feitas (de um Mel Gibson em Os Mercenários 3, por exemplo). O encontro dele com a personagem de Sônia Braga é um dos momentos de maior carga simbólica do filme (o embate de dois polos brutais com visões de mundo muito antagônicas, e inconciliáveis).

Bacurau não é uma obra fácil de digerir. Além das cenas fortes e toda tensão social que retrata, o filme tem ritmo e cortes de cena que talvez agradem menos as plateias afeitas às produções com estética mais novelesca da Globo Filmes (em Bacurau, ela é uma entre as coprodutoras). Em resumo, o longa exige do público tanto em estética cinematográfica quanto em consciência política.

Quando a gente faz um filme, espera que o público se conecte com ele de algum modo. ‘Bacurau’ tem mostrado uma capacidade forte de mexer com as pessoas em suas pré-estreias mundo afora. – Juliano Dornelles, diretor.

 Tantas alusões e “mensagens”, porém, deixaram também suas marcas no fôlego da trama. De tanto querer denunciar, Bacurau às vezes “afoga” o espectador em seu mar de pautas políticas. O convite à reflexão sobre as mazelas contemporâneas enfraquece o desenrolar de algumas cenas, que acabam gerando menos impacto do que poderiam (e deveriam, pelo bem do enredo). Fica claro o apetite ideológico da produção. A gula, entretanto, como todos sabem, sempre foi um pecadinho mais simpático que os demais.

Bacurau merece ser visto. De preferência, mais de uma vez, para melhor compreensão de tantas questões e problemáticas pontiagudas que traz à tona. Se você gostou desse artigo e também é louco por cinema, confira muito mais aqui no blog!

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