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Críticas

Chernobyl

20 jun 19 5 mins. de leitura
por Caique Araujo

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Título Chernobyl
País EUA, Alemanha , Reino Unido
Classificação 16 anos
Duração 58 mins.
Elenco Jared Harris, Stellan Skarsgård, Paul Ritter, Emily Watson, Jessie Buckley
Direção Craig Mazin
Gêneros Drama, Histórico
Ano 2019
Ucrânia, 1986. Uma explosão seguida de um incêndio na Usina Nuclear de Chernobyl dizima dezenas de pessoas e acaba por se tornar o maior desastre nuclear da história. Enquanto o mundo lamenta o ocorrido, o cientista Valery Legasov (Jared Harris), a física Ulana Khomyuk (Emily Watson) e o vice-presidente do Conselho de Ministros Boris Shcherbina (Stellan Skarsgård) tentam descobrir as causas do acidente.

Um dos maiores desastres ambientais da história, retoma em vida com Chernobyl. A nova aposta da HBO fora lançada no formato de minissérie e conta com apenas cinco episódios. Esses, entretanto, não decepcionam em nenhum aspecto. Um evento televisivo breve, mas que mexeu com o público e moldou uma necessidade contínua de focar na história. Criada por Craig Mazin, a minissérie visa explorar o desastre nuclear de 1986, contudo opta por trilhar a narrativa do ponto de vista da solução e dos culpados. Sem dúvidas, ela funciona!

Nunca é fácil contar histórias tristes, ainda mais quando elas aconteceram de verdade. E uma história tão devastadora quanto Chernobyl exigiria, no mínimo, uma responsabilidade em dobro para não apenas retratar as vítimas com respeito mas, também, narrar o ocorrido com o máximo de imparcialidade. E, bem, considerando esses fatores e que a série é uma produção americana, a HBO não decepciona e entrega uma das melhores séries do ano. Afinal, Chernobyl é uma obra completa, recheada de minúcias que separa o evento em cada detalhe.

Como ponto forte da minissérie, a trama foi idealizada para qualquer espectador, inclusive aqueles que não estão familiarizados com a história. Fica clara a intenção de, por exemplo, constantemente deixar o público consciente sobre o grau da tragédia sem precedentes. Mesmo que para isso Chernobyl precise utilizar termos técnicos e expressões científicas, o esforço continuo de tornar tangível o conhecimento funciona e qualquer leigo sairá compreendendo o que é e até como funciona um Reator RBMK.

Quando a série opta por democratizar as informações sobre o desastre, também é o momento quando o espectador mergulha em aflição acompanhando os personagens em meios as repercussões do acidente. Ainda mais quando o núcleo político russo decide recusar-se a aceitar a magnitude do evento e deixar esse espaço na história russa em branco. Em recursos práticos como a constante discussão entre Legasov e Shcherbina ou, ainda, o papel questionador e pró-ativo de Ulana Khomyuk, é possível gerar empatia e entender o contexto político da época conduzindo o espectador à revelação do mistério.

O elenco, todavia, conta com nomes pouco conhecidos do público comum. Enquanto que os “mais aclamados” estão por conta de Jared Harris, Stellan Skarsgård e Emily Watson. É evidente que isso não estraga a experiência dos espectadores. Por mais que o elenco não seja, em geral, conhecido, é notável a dedicação dos atores em transparecerem verdade e naturalidade em suas atuações. Como é o caso do núcleo narrativo com Lyudmilla Ignatenko, interpretada por Jessie Buckley, ao fazer o papel representando as vítimas da tragédia. Diria, inclusive, que por ali existem várias revelações artísticas que podem ser utilizadas em futuros trabalhos.

Mas, o que realmente chama atenção sobre a minissérie é que ela é um produto americano. E, sabemos que este foi um evento crucial durante a Guerra Fria e, principalmente, escondido durante muito tempo pela Rússia. Gerando, por consequência, uma escassez de material sobre o desastre. E, embora, a narrativa possa soar tendenciosa, a obra produzida pela HBO consegue superar qualquer representação que já fora feita sobre o mundo soviético. Ela é capaz de encontrar sua própria personalidade. Com certeza esse é um ponto fundamental para o sucesso do produto. Uma vez que ao idealizar uma estética comprometida e não caricaturada do povo russo, entrega sinceridade.

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É claro que, apesar dos esforços, algumas contaminações americanas são notáveis. Entre elas, a personagem de Emily Watson que adota uma típica postura de heroína americana. Ela que é uma representação do grupo de cientistas que trabalharam na época ao lado de Valery Legasov. Também a inclusão do comportamento questionador do sistema em Legasov, algo bem diferente da vida real, onde ele adotava uma característica totalmente fiel ao partido russo e não questionadora. É claro que essas mudanças encontram-se dentro da margem de licença poética. Não estragam a narrativa e atuam como disparadores interessantes para conscientização dos espectadores.

Aliás, um fator suficiente para o sucesso está justamente na duração. Em um momento onde o público exige cada vez mais episódios e mais temporadas, Chernobyl foge ao tradicional. Narrando uma história fechada e cuidadosamente projetada para cinco episódios com aproximadamente uma hora cada. Dessa forma, fica transparente o avanço preciso na narrativa ao tratar cautelosamente dos elementos essenciais para contextualizar o desastre ambiental. Com um começo enigmático, logo no dia do evento, sem qualquer prequel, a curiosidade já brota no espectador. Por isso é excelente quando a minissérie encerra respondendo durante o julgamento, detalhe por detalhe, todas as questões que ficaram em aberto.

Visualmente, Chernobyl também faz jus aos elogios que vem recebendo. A ambientação em cores frias traz um tom melancólico e deprimente. Com diversas pausas e uma trilha sonora que remete aos sons de uma usina nuclear, constrói um clima muitas vezes pesado, batendo forte com as emoções do espectador. Em geral, a atmosfera projetada na minissérie denota a preocupação constante de garantir o peso do desastre. Talvez, o único “ponto negativo” é mergulhar profundamente no núcleo político/cientifico sem mostrar mais histórias sobre as “pessoas normais” ou, pelo menos, como a população russa reagia aos eventos. Não que isso seja, é claro, um desequilíbrio na obra. Afinal, foram apenas cinco episódios.

No fim, Chernobyl atinge o seu propósito: a busca pela verdade. Para tanto, a série até pode romantizar e dramatizar alguns marcos pontuais, mas a essência dos fatos está reproduzida com fidelidade. No pouco tempo de desenvolvimento narrativo, cerca de cinco horas, consegue instigar o público e manter a atração para acompanhar o desenrolar da história. Fechando, neste processo, sem qualquer ponta solta notável. E, para encerrar, a minissérie ainda é capaz de conectar-se com a atualidade. Afinal, ainda vivemos em um mundo onde os poderosos conseguem monopolizar a verdade e contextualizar a mentira.

Agora, só nos resta esperar pelas prováveis novas minisséries que nasceram pós esse impecável lançamento da HBO. Isso porque, com tanta qualidade, Chernobyl certamente elevará o padrão no mercado para as representações estrangeiras e obras históricas. Para os espectadores, fica um sabor apreciável de uma excelente série que se compromete a entregar tudo que o espectador espera, conseguindo no processo ainda ser surpreendente e transmitir o peso direto que o acidente carrega consigo.

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