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Críticas

Dor e Glória

27 jul 19 4 mins. de leitura
por Ricardo Vergueiro

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Título Dor e Glória
País Espanha
Classificação 16 anos
Duração 113 mins.
Elenco Penélope Cruz, Antonio Banderas, Leonardo Sbaraglia, Nora Navas, Asier Etxeandia, Cecilia Roth, Susi Sánchez, Julián López, Julieta Serrano.
Direção Pedro Almodóvar
Gêneros Drama
Ano 2019
Salvador Mallo, diretor de cinema em declínio, relembra sua vida e carreira desde sua infância na cidade de Valência, nos anos 60. Salvador tem lembranças vívidas de seus primeiros amores, seu primeiro desejo, sua primeira paixão adulta na Madrid dos anos 80 e seu interesse precoce no cinema.

Em seu mais novo filme, em cartaz no Brasil desde junho, Pedro Almodóvar parece encontrar um espelho para o qual se volta depois de olhar para trás, mais especificamente para sua infância. Além de toda intensidade e o profundo olhar sobre as paixões humanas – marca registrada do diretor -, Dor e Glória “carrega” um pouco de Almodóvar.

O filme conta a história de Salvador Mallo (Antonio Banderas), um cineasta solitário e atormentado por problemas de saúde e uma melancolia visceral. Mas como Almodóvar fez questão de reforçar em várias entrevistas, é um personagem apenas semi-biográfico. Há sim cenas claramente inspiradas na vida dele (ex: Salvador vai perdendo a audição, um problema que também aflige Almodóvar), mas há muita ficção também (o personagem é viciado em heroína, droga que o diretor afirma nunca ter provado).

Não é minha autobiografia, mas é o filme que me representa mais intimamente. Estou certo de que falo de coisas muito íntimas de minha vida e meu trabalho.” – Pedro Almodóvar

Logo nas primeiras cenas, você já mergulha na atmosfera típica dos filmes de Almodóvar: uma combinação de fotografia e trilha sonora que formam um tipo de gatilho sinestésico na mente do(a) espectador(a), engrandecendo a narrativa. Usando de flashbacks, o personagem refaz sua trajetória desde a infância pobre até um passado recente, já como artista reconhecido pelo público e a crítica.

– Se não vai escrever nem filmar, o que vai fazer?
– Viver, suponho.

O filme começa com Salvador Mallo numa piscina, emergindo das águas nas quais procura diluir parte das dores físicas e psicológicas que sofre. Trata-se de uma bela metáfora da condição do protagonista, que terá de submergir no turbilhão de um passado profundo para trazer toda uma vida à tona.

Na realidade, Salvador procura um sentido. Nessa busca, ele reencontra o ator de seu primeiro filme e sucesso de direção chamado “Sabor”. Alberto Crespo (Asier Etxeandia) faz o irrequieto ator com quem ele havia brigado no passado, e com quem ele espera se reconciliar para uma nova aparição pública. O objetivo? Sondar o interesse das novas gerações por sua obra e seu legado.

Apesar de ser um drama, a história de Salvador é temperada de cenas bem-humoradas, além de inúmeras referências à arte cinematográfica, o “fazer cinema” (declarações de amor de Almodóvar à “sétima arte”).

Drama ou comédia? Não sei. Isso não se sabe. – Salvador Mallo

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Mallo se recorda da mãe analfabeta apostando em seu potencial, acreditando nele, muito mais do que ele mesmo é capaz de acreditar. Afinal, o personagem não crê no reconhecimento que conseguiu – e não acha que o mereça também. O relacionamento dele com a mãe (interpretada por Julieta Serrano e Penélope Cruz, em duas fases diferentes da história) é uma chave importante do enredo.

O elenco de Dor e Glória é caprichoso e – como não podia deixar de ser numa produção de Almodóvar – explora as motivações profundas de seus personagens. Inclusive, a atuação de Antonio Banderas rendeu o Prêmio do Juri (categoria Melhor Ator) do Festival de Cannes.

Os meses de verão gravando esse filme foram os melhores da minha vida e isso ninguém pode me tirar. – Antonio Banderas

Mas além de Banderas e Penélope Cruz, Nora Navas (Mercedes, secretária de Salvador) é outro grande destaque. E mesmo aqueles com tempo menor em cena, como Leonardo Sbaraglia (Federico, um ex-amante), imprimem um colorido extra ao revelarem facetas importantes do personagem principal, suas relações amorosas e os conflitos entre arte e vida pessoal.

Desde pequena eu o admirava mais como uma figura cultural da Espanha do que como diretor. Ele foi um sopro de ar fresco em nossa sociedade e soube situar as mulheres em um patamar diferente – cada personagem feminino que ele escreve é uma homenagem a elas. Não creio que exista alguém mais feminista que ele, que valoriza e aprecia as mulheres” – Penélope Cruz, sobre Pedro Almodóvar.

Por falar em cores, quem conhece o trabalho de Almodóvar, sabe o quanto ele é primoroso na composição das imagens. Com seu 21º filme não podia ser diferente. E, Mesmo que alguns críticos afirmem se tratar da obra menos colorida de Almodóvar, para mim, Dor e Glória é uma verdadeira aquarela. O impacto visual da fotografia é belíssimo e merece a reverência que só a escuridão total de uma sala de exibição é capaz de proporcionar. As cores e o brilho, inclusive, aliviaram um pouco as dores, não as de Salvador, mas as minhas próprias (intenção de Almodóvar?).

No mais, foi como se Pedro Almodóvar reunisse toda a plateia e, na nossa frente, contasse alguns bons “causos” de sua própria vida. Suas dores e glórias. Então, se você gostou dessa crítica, não deixe de dar uma chance para essa estreia promissora!

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