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Críticas

Dumbo

19 jun 19 5 mins. de leitura
por Caique Araujo

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Título Dumbo
País EUA
Classificação 10 anos
Duração 112 mins.
Elenco Colin Farrell, Danny DeVito, Michael Keaton, Eva Green
Direção Tim Burton
Gêneros Família, Aventura, Fantasia
Ano 2019
1919, Joplin, Estados Unidos. Holt Farrier (Colin Farrell) é uma ex-estrela de circo que, ao retornar da Primeira Guerra Mundial, encontra seu mundo virado de cabeça para baixo. Além de perder um braço no front, sua esposa faleceu enquanto estava fora e ele agora precisa criar os dois filhos. Soma-se a isso o fato de ter perdido seu antigo posto no circo, sendo agora o encarregado em cuidar de uma elefanta que está prestes a parir. Quando o bebê nasce, todos ficam surpresos com o tamanho de suas orelhas, o que faz com que de início seja desprezado. Cabe então aos filhos de Holt a tarefa de cuidar do pequenino, até que eles descobrem que as imensas orelhas permitem que Dumbo voe.

Dumbo, o pequeno elefantinho, é mais uma iniciativa da Disney de transformar suas clássicas animações para live-actions. Tal como fora feito com Cinderela, A Bela e a Fera e Mogli, Dumbo “tenta” ser o mais fiel possível a animação, resgatando tudo que a Disney permite ser resgatado. Será essa obra mais um acerto do estúdio bilionário?

Lançado originalmente em 1941, a animação Dumbo nasceu em uma época onde não haviam preocupações ou filtros politicamente corretos. Por conta disso, algumas cenas, hoje questionáveis, já não são mais apreciadas pela filosofia da Disney. Com isso, a decisão inteligente da Disney em excluir cenas, antes importantes, e alterar o final da animação torna-se justificável. Entretanto, nem sempre as alterações resultam em uma resposta clara de sucesso. Dumbo não era para qualquer um. Afinal, talvez, assim como Pinóquio e Bambi, é uma das animações mais tristes do estúdio.

Por conta disso, a escolha da direção também foi um decisão inteligente. Alguns diretores tem nuances tão bem definidas que transformam-se em suas assinaturas. Este é o caso de Tim Burton. Ele que, tantas vezes, já explorou o que há de mais doce na tristeza. Seja com Edward Mãos de Tesoura, O Estranho Mundo de Jack ou até A Fantástica Fábrica de Chocolate. Com Dumbo não poderia ser diferente. Por esse motivo torna-se tão claro o motivo da escolha pelo diretor. O pequeno elefantinho, mesmo na animação, sempre fora associado a um tom mais melancólico. Isso devido, é claro, não apenas ao seu defeito de nascença, mas também a separação inesquecível de sua mãe e como ele é, a princípio, ridicularizado e “explorado”.

A narrativa entretanto, diferente de outras produções Disney, não soa como um remake. Dumbo é uma completa readaptação da história e reinvenção na visão de Burton. Embora distante da história que originou o longa, o filme apresenta o mesmo cerne que, uma época, tocou corações. Enquanto que na animação o lúdico transforma-se com os animais que falam e cantam, no longa o ponto de vista humano entra em destaque. Aliás, por mais inesperado que pareça, a Disney opta por abandonar todas as canções originais e apenas mencioná-las com algumas notas. O primeiro longa desta nova fase a fazer isso. Mas, durante a experiência, torna-se claro a razão. Simplesmente não combina.

Com tantas mudanças na história, a alternativa adotada por Burton, portanto, fora definir toda a fauna do circo e personagens caricatos ora com sorrisos ameaçados e ora esperançosos. Neste ponto, o elenco é construído ao redor de grandes nomes da cidade da fama. Entre eles: Danny DeVito, Colin Farrell, Michael Keaton e Eva Green. Mesmo assim, o melhor do elenco fica apenas por conta de DeVito. Sendo este, representando um personagem amante sincero da vida no circo e um trambiqueiro nato para ganhar dinheiro a qualquer custo. Quanto aos demais, suas atuações não vão além do que é proposto. Não que isto seja um aspecto negativo, mas certamente não destaca ninguém e muito menos acrescenta a história.

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Tudo deve-se ao fato de que Burton decide deixar algumas questões narrativas apenas no subjetivo. Como, por exemplo, quando ele tenta fazer uma relação indireta entre o personagem de Farrell. Alguém repleto de fama que agora volta como um “estranho sem braço” ridicularizado e transformado em um mero palhaço. Ou quando a personagem de Eva Green é construída para que o espectador perceba o resgate da magia no circo, enquanto que isso nunca é discutido. Todas situações desperdiçadas e apáticas que não contribuem, mas também não denigrem o enredo.

O coração da história, entretanto, mais do que Dumbo, concentra-se nas crianças, Milly e Joe – interpretados por Nico Parker e Finley Hobbins, respectivamente. Embora as atuações sejam simples como devem ser, é através delas que Tim Burton opta por expressar sua mensagem: somente o coração mais puro pode entender o impossível. Novamente uma mensagem subjetiva. Afinal, elas são as únicas capazes de estabelecer uma comunicação sincera com Dumbo e, portanto, despertarem a confiança do animalzinho.

Devido a todo cerne humano do longa metragem, Burton decide recontar a narrativa clássica sob uma nova perspectiva, encontrando um equilibro sobre o que deve ser mantido ou descartado. A comovente separação dos elefantes está lá, tão forte quanto na animação, assim como a experiência intensa do primeiro, e desesperador, voo de Dumbo. Apesar de cortar completamente o aspecto “humanizado” nos animais, como na animação adotando fala à eles, o encanto dos efeitos visuais permitem que o elefantinho e os demais sejam vistos com uma doçura cativante. Nem sempre isso funciona, entretanto. Como quando Burton decide criar um macaquinho que é bem menos cativante que o de Piratas no Caribe, por exemplo. Afinal, os animais definitivamente não são os protagonistas.

Ainda assim, Dumbo consegue ser bom, apesar de apresentar problemas questionáveis. Entre eles, a falta de diálogo com a magia Disney. Talvez essa seja uma limitação comercial do Tim Burton para com a Disney. Não lhe é permitido mergulhar na melancolia, tudo o que ele mais sabe fazer. Por esse motivo, o filme sai completamente dos trilhos do meio para o final. Transforma-se em outra narrativa e tenta adotar um discurso crítico de libertação. Isso porque o parque temático de Keaton é uma alusão clara à Disney, criticando o sistema projetado na intenção de lucrar com exploração das suas atrações, sejam vivas ou mecânicas… enquanto que é preciso passar a mensagem de que os animais não devem ser explorados.

Um dos momentos onde a falta de magia torna-se mais evidente é quando o espectador, após o primeiro voo, tem uma constante necessidade de que algo mais mágico está prestes a conquistá-lo. Mas, após esta cena, tudo é concentrado em poucas ações e muitas expressões, sem tanto desenvolvimento. O final do filme já é descoberto logo no segundo ato. Aliás, fica evidente que Burton sabia da ausência mágica quando decidiu inserir uma variante da cena clássica dos elefantes dançarinos. Não é certo o que ele esperava, mas o resultado é dissonante ao propósito do longa. Afinal de contas, desde o começo, a história optou por construir uma realidade bem pé no chão onde “bolhas dançantes” não se encaixam e, ainda sim, não são explicadas.

Mas, veja bem, Dumbo também tem seus méritos incontestáveis. Entre eles, a fotografia. Com ambientes mais lotados e uma palheta de cor mais quente que cria uma conversa ideal com o tom narrativo escolhido. Algo que Tim Burton sempre soube como fazer. E, no fim, o filme consegue encantar e emocionar, apesar de também cansar em uma constante espera por algo que nunca acontece. Dumbo não deixa de ser um acerto do estúdio Disney, porém as claras limitações de Tim Burton impede que o longa seja mágico e também seja melancólico, não entregando tudo aquilo que o espectador espera de um clássico.

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