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Críticas

O Rei Leão

28 jul 19 5 mins. de leitura
por Caique Araujo
ATENÇÃO: Esse artigo poderá conter alguns spoilers

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Título O Rei Leão
País EUA
Classificação 10 anos
Duração 118 mins.
Elenco Donald Glover, Beyoncé Knowles-Carter, James Earl Jones, Seth Rogen, Chiwetel Ejiofor, Alfre Woodard, Billy Eichner, John Kani
Direção Jon Favreau
Gêneros Aventura, Fantasia
Ano 2019
Simba (Donald Glover) é um jovem leão cujo destino é se tornar o rei da selva. Entretanto, uma armadilha elaborada por seu tio Scar (Chiwetel Ejiofor) faz com que Mufasa (James Earl Jones), o atual rei, morra ao tentar salvar o filhote. Consumido pela culpa, Simba deixa o reino rumo a um local distante, onde encontra amigos que o ensinam a mais uma vez ter prazer pela vida.

Com O Rei Leão é certo dizer que a Disney chega ao ápice do processo de “auto-canibalização”, entregando nada mais nada menos do que uma experiência totalmente traduzida da versão original. Ao contrário dos demais live-action da Disney, por exemplo, incluindo alguns com animais como Mogli (também dirigido por Jon Favreau) ou Dumbo, este tira o que havia de mais mágico em cada filme: as expressões e emoções dos personagens. E, apesar da proposta realista com a qual se sustenta, a falta de adaptação do roteiro é a maior falha deste filme. Entenda!

Para começar, o novo longa metragem da Disney é exatamente o mesmo que o longa original. Então, assistindo a animação, você já assistiu ao nova longa. As falas estão lá, os timings também. A produção, ao que parece, adotou como compromisso copiar cada quadro da fonte de origem, entretanto readaptando o que não soava “realista”. A única grande diferença, talvez, está nos 20 minutos adicionais que, apesar de estarem ali para resolver algumas pequenas questões, não acrescentam em nada para a trama principal. No mínimo justificam o alto orçamento do longa, que não poderia resultar em um material com menos de duas horas.

Mas, diante a cópia, ainda cabem alguns elogios. Entre eles, o elogio técnico. Os envolvidos estão de parabéns. A equipe se propôs a desenvolver personagens realistas e situações reais. Eles conseguiram. A qualidade técnica do CGI está impressionante, com algumas ressalvas. Por várias e várias vezes, soa como se o espectador estivesse assistindo o National Geographic. Isso inclui diversas cenas impressionantes visualmente, e muito bem animadas, como o close em um besouro “rola-bosta” ou em um rato entre os arbustos. Todavia, também incluí o famoso recurso das cenas escuras, para aliviar o processo de renderização do 3D, que fazem com que os animais sejam quase indistinguíveis. Contudo, ao adotar o realismo exagerado, perdeu-se o lúdico.

A estratégia pode ser explicada, talvez, por um desafio “mais pessoal”. Jon Favreau comentou que, em Mogli, ele aprendeu que ao incorporar expressões humanas em animais, eles começarão a parecer mais humano – um tanto óbvio, inclusive. Alias, vale um adendo que esse foi um fato primordial para que a canção “Somente o Necessário” funcionasse como deveria. Sendo assim, por algum motivo, agora o desafio fora traduzir as emoções sem utilizar os músculos faciais. O objetivo concentrou-se em sobressair as expressões corporais.

Desde o começo, esse era um desafio em tanto. E, no final, não funcionou como deveria. Quando do outro lado, o roteiro decide seguir exatamente os passos da animação, apenas “corrigindo” os problemas para encaixar situações em um universo realista… o resultado é uma experiência monstruosa. Apesar de todo vislumbre técnico e artístico para conseguir fazer o espectador acreditar o quão real são os animas, manter as situações cômicas, dramáticas e musicais exatamente como eram faz com que elas percam a força pelas limitações expressivas dos personagens.

E, assim, eis a primeira “bomba” artística da obra. O Rei Leão também é um musical. A proposta de um musical é justamente construir um ambiente que transcende a realidade, afim de expressar os sentimentos dos personagens. Porém, é inevitável que o lúdico seja incorporado nesse processo e até essencial. Sem todo o “show”, o musical fica insosso. É justamente por esse motivo que somos apresentados a realidades completamente fora do normal, como pessoas aleatórias dançando na rua, malabarismos extravagantes, cores vibrantes, etc.

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Então, é natural esperar algum nível de extravagância. Mas em O Rei Leão, a direção não se permite entrar no lúdico e ao remover todas as expressões originais que optou por copiar, nenhuma das canções no filme funciona. A exceção, entretanto, está na primeira cena que Timão e Pumba cantam envolvendo a floresta. Isso porquê devido ao tamanho dos animais envolvidos na cena, os movimentos que eles geram ficam um pouco mais irrealista. O exagero que esperávamos. Mas em todas as demais, incluindo a clássica de Scar com as hienas, soa como objetos de ventriloquia que movem a boca em uma única direção, com expressões quase que inexistentes.

Existem momentos que, nitidamente, a equipe percebe as limitações que colocou para si mesma. E, na tentativa de tentar extrair qualquer emoção facial, levam os músculos dos personagens ao limites… o que resulta em expressões ligeiramente assustadoras e grotescas. Em vários momentos do longa isso se torna um problema. Primeiro porque a história do pequeno leão, Simba, é extremamente emocional. Segundo porque a animação foi idealizada para humanizar os personagens, tirando o sentido de copiá-la ao pé da letra. Então em situações como a morte do Mufasa é difícil perceber a tristeza no Simba, assim como o medo quando as hienas começam a persegui-lo.

De certo modo, isso também acabou sendo transmitido para os dubladores. Na animação original, por exemplo, as expressões eram construídas e humanizadas dentro da fonética dos dubladores, tanto os originais quanto os nacionais. Porém aqui, como há a ausência das expressões, não resta muito o que fazer. Então, muitos dubladores da lista não sabem como reposicionar a sua voz para uma expressão que eles não veem. Algo que fica bem transparente quando Scar está prestes a derrubar Mufasa, a fala que antes era um saboreio para o personagem, fica tão normal quanto qualquer outra fala do filme.

Novamente, o pior sobre esta interpretação é que a linguagem foi a mesma para uma abordagem diferente. E aqui está o grande vilão deste filme. O Rei Leão tem muito apelo comercial e foi uma das melhores animações da Disney de todos os tempos. Com o sucesso de Mogli, Jon Favreau já era a escolha certa da Disney, mas foi preciso seguir a cartilha executiva. Ficou como missão comercial da equipe incorporar o mesmo roteiro que já deu certo, reproduzir as mesmas imagens para ativar o saudosismo e inserir situações com o intuito de popularizar o filme em alta velocidade. E, quando os executivos entram em ação, a obra cinematográfica é sempre prejudicada. Embora, seja extremamente comercial e venda muitos ingressos.

Para as inserções desproporcionais do longa metragem, duas merecem ser citadas. A primeira está na canção de Beyoncé, claramente desenvolvida para os créditos finais, mas simplesmente jogada na narrativa para “tentar” garantir o OSCAR de melhor canção original. Se o OSCAR for pelo contexto, esse filme já está fora. E a segunda foi para alimentar o comportamento Disney “quem lacra, lucra”. Na cena em que Pumba precisa distrair as hienas, ele decide lutar pela “gordofobia”, embora seja uma ótima iniciativa, a obra não desenvolve a discussão. Dessa forma, claramente uma cena comercial para garantir alguns aplausos e “bombar no Twitter”.

E mesmo com todos os problemas, pelo saudosismo extremo, a dominação da Disney e as exaustivas pesquisas de mercado, o longa cumpre o seu papel ao conquistar a massa. É uma introspecção realmente curiosa tentar entender o porquê um longa sem expressão conquistou tanta gente. O Rei Leão é um filme moderno como prova da insaciável busca da Disney pelo máximo de bilheteria que canibaliza a animação original. Replica tudo que deu certo, esquece de adaptar o sentimento, não incorpora o lúdico e injeta tudo que for preciso para garantir o “hit” do ano. Para encerrar com algo que vi em alguns comentários, o longa é a perfeita tradução da cena onde a juba do Simba acompanha um besouro rola-bosta.

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