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Críticas

Rocketman: um espetáculo delirante

31 maio 19 5 mins. de leitura
por Caique Araujo

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Título Rocketman
País Reino Unido
Classificação 16 anos
Duração 91 mins.
Elenco Taron Egerton, Bryce Dallas Howard, Jamie Bell, Richard Madden
Direção Dexter Fletcher
Gêneros Biografia, Comédia Musical
Ano 2019
A trajetória de como o tímido Reginald Dwight (Taron Egerton) se transformou em Elton John, ícone da música pop. Desde a infância complicada, fruto do descaso do pai pela família, sua história de vida é contada através da releitura das músicas do superstar, incluindo a relação do cantor com o compositor e parceiro profissional Bernie Taupin (Jamie Bell) e o empresário e o ex-amante John Reid (Richard Madden).

Após o sucesso de “Bohemian Rhapsody“, ano passado, já era esperado que Hollywood começasse a apostar em outras cinebiografias de astros pop/rock. Como de praxe, isso influenciou completamente a expectativa para “Rocketman“, para alguns de forma positiva enquanto que para outros negativa. O longa propõe contar sobre a vida e carreira de Elton John. O resultado? Um filme mais emocionante, empolgante, divertido, frenético e inteligente do que a biografia de Freddie Mercury.

É impossível começar a falar de Rocketman sem trazer à equação Bohemian Rhapsody, ganhador de alguns OSCARs. Um influenciou o outro. A diferença entre as duas narrativas, entretanto, está na forma como conduzem sua história. Enquanto o longa de Bryan Singer, sobre Mercury,  não “assume” nenhuma identidade, Rocketman, por Dexter Fletcher, encontra um estilo próprio ao comprometer-se em retomar a ideia de um musical clássico, deixando, para tanto, que a fantasia fale mais alto que os fatos. O longa mostra a vida do músico desde a sua infância até seu retorno pós-reabilitação na década de 90. No roteiro, escrito por Lee Hall, toda narrativa parte do ponto de vista do Elton John, criando inúmeras camadas da persona tão complexa que Elton sempre foi.

No auge dos anos 70, sexo, drogas e álcool eram rotina na vida dos grandes astros. Com John não foi diferente, ele passou por essa fase e ainda precisou lidar com a declaração de sua sexualidade e seus constantes momentos de raiva. Quando o filme opta, ao contrário de muitas outras cinebiografias, por não esconder tais nuances, a história torna-se rica. Isso faz com que o espectador seja exposto a um personagem esférico e real, não apenas um ícone para ser idolatrado. É claro que o filme ainda “aliviou” toda a intensa vida do ídolo. As menções a sexo, drogas e álcool não chegam a tomar tanto tempo em tela como era esperado.

Adotada o estilo de construção e seguindo ao contrário das cinebiografias tradicionais, o roteiro de Rocketman preza pelo lado psicológico. Ao invés de focar em como a carreira de Elton, ou suas composições, foram criadas, as músicas e os eventos são utilizados para ressaltar as emoções dos personagens e criar uma alegoria fantasiosa sobre como John visualizava a sua própria história. O que é lindo, na narrativa, é que existe o momento ideal para cada uma de suas clássicas canções brilharem. De “Your Song” a “Saturday’s Night Altight“, de “Crocodile Rock” a “Goodbye Yellow Brick Road“. Todas as principais músicas do cantor, ganham um espetáculo próprio e cativam os olhos, a alma e coração. O fato do roteiro ainda utilizá-las como narrativa, torna as letras de Elton mais poderosas.

Ao mesmo tempo que o espetáculo é garantido e majestoso, compromete o papel de conduzir o espectador a compreender a trajetória do cantor. Talvez seja este o principal ponto falho do longa. Apesar de renovar o gênero, ainda se trata de uma cinebiografia. Mas, o filme decide utilizar as músicas para aplicar o “flashforward” na história e seguir adiante com os eventos em situações bem diferentes e, nem sempre, relacionadas. Não há nada sobre o encerramento e o caminho do ponto A ao B. A subjetividade entra na narrativa. Como, por exemplo, quando descobrimos o menino prodígio que Elton era, sendo aceito pela Royal Academy of Music, uma das instituições musicas mais respeitadas do Reino Unido. Porém, o enredo nunca retorna para a construção do evento e não sabemos como foi o crescimento musical de Elton e a relação dele com a acadêmia.

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O maior destaque, e surpresa, de Rocketman é Taron Egerton – esse merece o OSCAR. O ator, ainda estreante, brilhou em Kingsman, mas gerava dúvidas para atuar em um papel tão denso e multidimensional. Mas, logo nos primeiros minutos em cena já é possível perceber o quanto sua interpretação está impressionante. Egerton trabalhou duro e conseguiu encontrar os “detalhes” e “manias” de Elton, desde a maneira como anda até o jeito como sorri e contorce a boca. Era possível visualizar a persona Elton John. Dessa forma, o ator desaparece e o personagem brilha. Algo ainda mais importante é o fato de que Taron optou por cantar todas as músicas do filme, sem dublês de voz. O resultado, para qualquer fã de Elton John, é algo muito parecido a fonética inconfundível do cantor.

Uma marca registrada sobre Elton John é o seu figurino. Ainda lá na década de 70/80, o cantor já despertava a curiosidade ao fantasiar-se com looks completamente malucos, extravagantes e delirantes. Não é atoa que o músico tem uma das maiores coleções de óculos do mundo, por exemplo. O filme faz um trabalho incrível ao reproduzir cada figurino importante na carreira de Elton. O trabalho de Julian Day, que curiosamente também trabalhou no figurino de Bohemian Rhapsody, deixa o espectador de boca aberta. E, em diversos momentos do filme, a caracterização somada a atuação de Taron faz com que o espectador consiga enxergar o próprio Elton.

Por fim, o longa entrega uma mensagem sincera e esperançosa. John sempre se sentiu como um homem solitário que nunca iria encontrar o amor. Suas roupas e sua performance ajudam a destacá-lo, mas também provocam o seu isolamento da multidão. Na narrativa, o espectador é apresentado a dificuldade que John possui em se conectar com as pessoas ao seu redor. Os principais representantes disso, no longa, são seu pai, interpretado por Steven Mackintosh, e seu empresário, vivido por Richard Madden. Enquanto o pai recusa-se a demonstrar qualquer tipo de carinho ao filho, seu empresário aproveita de sua carência para ganhar ainda mais dinheiro.

No encerramento, temos o confronto de Elton com todas as principais personas importantes da sua vida. E uma simbologia poética inesquecível: o perdão e a resposta interior. O filme começa e finaliza com uma mensagem positiva. Uma imagem para uma pessoa que merece ser admirada. Esse turbilhão de emoções culminam para o resumo desta crítica. Rocketman é um filme honesto e transparente, um espetáculo delirante que envolve os espectadores a caminharem na história com Elton e participarem da sua visão de mundo e, também, de seus pensamentos. O longa termina garantindo que a platéia esteja envolvida e entregando momentos para ficarem no coração.

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