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Eleanor e Park é racista? Analisando o livro
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Eleanor e Park é racista? Analisando o livro

15 maio 19 6 mins. de leitura
por Mandy Ariani

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Eleanor e Park é um dos romances mais agraciados de Rainbow Rowell, tendo conquistado uma legião de fãs e elogios de autores como John Green, Gayle Forman e Stephanie Perkins. O livro fez tanto sucesso que ganhou diversos prêmios e exaltações da crítica, dentre eles, um dos melhores livros de 2013 pela NPR’s e o Boston Globe-Horn Book Awards, também, de 2013. Porém, o yound adult também começou a ser chamado de racista por diversas plataformas. Então, hoje nós vamos analisar o livro e conversar sobre isso!

Para começar, Eleanor e Park foi muito elogiado por sua representatividade, afinal o livro nos traz um protagonista americano de ascendência asiática e uma protagonista definida pelo próprio Park como “grande e esquisita”, além de ter cabelo ruivo e cacheado. Portanto, é evidente que a narrativa usou protagonistas incomuns, ainda mais, para a época. Então, por que um enredo desse tipo está sendo chamado de racista?

A menina tinha a aparência exata do tipo de pessoa com o qual isso costuma acontecer. Não só por ser uma pessoa nova ali, mas por ser grande e esquisita. Com o cabelo bagunçado, bem ruivo, além de cacheado. E se vestia como se… como se quisesse que as pessoas ficassem olhando.

Antes de tudo, vamos falar um pouco sobre a trama de Eleanor e Park. O enredo foca nesses dois protagonistas, que possuem vidas completamente distintas. Park tem pais unidos, um lar aconchegante e tudo do bom e do melhor. Em contrapartida, Eleanor está numa família super desestruturada, na qual sua mãe encontra-se num relacionamento abusivo, e ela e seus irmãos caçulas sofrem no meio disso. Para piorar, Eleanor é aquela garota sem muitos amigos e, como veremos, sua aparência e suas roupas não a ajudam a conquistar muitas pessoas.

Então, quando Park a encontra pela primeira vez no ônibus da escola, ele só pôde ficar intrigado e, ao mesmo tempo, lamentar pelas provocações que a garota logo iria receber. Por isso, um pouco grosseiramente, ele permite que ela sente do seu lado no ônibus. Desse momento em diante, os dois começam uma amizade curiosa que vai se transformando em algo mais.

© Material de divulgação passível de direitos autorais.

Eleanor e Park é racista?

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Eleanor e Park é racista?

A crítica ao racismo se encontra justamente na figura de Park, pois o personagem teria sido descrito de acordo com os estereótipos típicos da Ásia. Portanto, sua relação com a Eleanor e, até mesmo, com seus pais, contribuiria para a fetichização dos asiáticos orientais. Em tese, isso significa que o Park e sua família são, por vezes, caracterizados de acordo com clichês acerca do povo do Leste Asiático. Isso, na verdade, não seria uma surpresa tão grande, afinal Rainbow Rowell é uma americana branca que cresceu em Omaha – cidade predominantemente branca, na qual a história se passa. Na realidade, asiáticos e asiáticos americanos representam apenas 3,3% da população do lugar. Logo, é possível inferir que a autora não conviveu muito com esses cidadãos. Então, por que ela decidiu escrever sobre um protagonista coreano? 

Por que o Park é Coreano? A primeira vez que me perguntaram sobre isso, três ou quatro meses atrás, tive uma resposta bem curta: Porque Park é coreano.

Bem, Rainbow Rowell já deu algumas declarações que fizeram parte do público pensar que, na verdade, ela não estudou muito sobre o seu protagonista. Se pensarmos bem, o Park incorpora sim diversos estereótipos: Ele luta taekwondo, se destaca em matemática e, frequentemente, é descrito como “feminino”.  Inclusive, é valido ressaltar que o Park fala muito pouco de sua própria cultura. Por isso, grande parte dos comentários criticados pelos leitores partem da personagem Eleanor.

Ademais, a identidade mestiça de Park é frequentemente desvalorizada, por exemplo, quando Eleanor menciona sempre seus olhos verdes. O propósito? Enfatizar o quão exótico ele é para ela. Basicamente, a identidade de Park é usada como um dispositivo para Eleanor, a protagonista branca, projetar e fetichizar. Não obstante, ao longo do livro, a protagonista usa muito a colocação “mestiço idiota”. Apesar da frase ter surgido a partir de sua primeira impressão negativa de Park, depois ela passou a ser usada de modo carinhoso. De qualquer forma, vou compartilhar com vocês, alguns dos trechos que o público caracterizou como problemáticos.

Veja:

Todas as mulheres da família eram baixas, e todos os homens, altos. Somente o DNA de Park perdera  esse memorando de altura. Talvez os genes coreanos tivessem misturado tudo lá dentro.

– Quando olho pra você – ela disse, recostando-se nele –, não sei se te acho bonito porque
você é coreano, mas não acho que é apesar disso. Só sei que te acho um gato. Tipo, muito
gatinho, Park…

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Ela nem dissera nada legal sobre ele. Não dissera que ele era mais bonito que todos os meninos, e que a pele dele era como a luz do sol bronzeada.

 

She hadn’t told him that he was prettier than any girl, and that his skin was like sunshine with a suntan.

Observação: Uma coisa que, em certos momentos, pode confundir o leitor é a tradução para o português. Por exemplo, em partes em que Park é comparado com garotas no inglês, o tradutor resolveu muda a comparação para garotos no português. Desse modo, fica mais difícil para nós notar o estereótipo de “feminilidade” que aplicam, frequentemente, ao personagem.

Park não estava lindo. Parecia perigoso. Tipo Ming, o Impiedoso. Ou um membro do Duran Duran.

© Material de divulgação passível de direitos autorais.

Eleanor e Park é Racista?

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Ming, o Impiedoso, é um personagem que apareceu pela primeira vez na história em quadrinhos do Flash Gordon em 1934.

Talvez Park a paralisara usando magia ninja, seu punho vulcano, e estava prestes a devorá-la.

A dinâmica Predador vs Presa

Quando li Eleanor e Park, fiquei um tanto incomodada com a dinâmica do relacionamento dos protagonistas. Apesar de ter deixado passar na época, é fácil perceber porque muitos asiáticos se incomodaram. Pois, em diversos momentos, Eleanor usa metáforas de comida para descrever Park, se colocando sempre no papel de predadora. Como na citação abaixo:

– E parece um protagonista – ela falava tão rápido quanto lhe vinham as ideias. – Parece o
cara que vence no final. É tão lindo, e tão gentil. E tem olhos mágicos – ela sussurrou. – E me
faz sentir como se eu fosse uma canibal.

O estereótipo de mulheres asiáticas:

Através da mãe de Park, Eleanor reforça diversos estereótipos e preconceitos sobre as mulheres asiáticas. Não é segredo que, a expectativa em cima do comportamento e da aparência da mulher asiática, é imensa. Portanto, aquelas que não se enquadram nos estereótipos – magrinhas, baixinhas, delicadas, fofinhas – costumam sofrer muito bullying. Então, ao mesmo tempo em que a autora nos traz uma protagonista incomum para livros de romance, ela também peca com outras personagens. Inclusive, também houveram muitas reclamações acerca dos estereótipos racistas aplicados as personagens Beebi e DeNice, amigas de Leonor, como mulheres negras. Veja:

A mãe era quase uma boneca. Em O Mágico de Oz – o livro, não o filme –, a Dorothy chega num lugar chamado Cidade de Porcelana Chinesa, onde todas as pessoas eram pequenas e perfeitas.

 

Beebi era o que a mãe de Eleanor costumava chamar de “menina grande”. Era muito maior
que Eleanor; o uniforme de ginástica de Beebi tinha até uma cor diferente dos das outras
pessoas, como se tivessem que pedir o dela separado. Perto de Beebi, Eleanor se sentia uma
boboca por odiar tanto o próprio corpo. (Embora tivesse reparado que era sempre ela que era
chamada de porca na Educação Física, nunca Beebi.)

Basicamente, dentre as principais críticas a Eleanor e Park, temos: os estereótipos racistas de Park e outros personagens, feminilização do homem de origem asiática, linguagem racista e a infantilização da mulher asiática. Aparentemente, Rainbow Rowell não pensou muito bem na descrição de Park, reafirmando estereótipos, fetiches e um racismo tão enraizado que mal conseguimos notar. Portanto, esperamos que a adaptação cinematográfica possa corrigir essas falhas e tornar a história melhor – e mais realista. Mas e quanto a você, caro leitor, qual a sua opinião? Eleanor e Park reproduz o racismo?

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