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Jane Eyre: a virtude de uma grande heroína e a libertação das amarras
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Jane Eyre: a virtude de uma grande heroína e a libertação das amarras

16 jun 20 6 mins. de leitura
por Mandy Ariani

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Não é fácil crescer em meio à opressão, na verdade, viver em uma sociedade que delimita fortemente os espaços que devem ser ocupados por determinados grupos é extremamente doloroso para os atingidos. Jane Eyre, a grande heroína do clássico de Charlotte Brontë, precisou enfrentar essa realidade desoladora prematuramente. Órfã, desprovida de qualquer fortuna e descrita como “feia” em vários momentos, a personagem é oprimida não só por sua condição enquanto uma mulher sem laços em pleno século XIX, mas também pelas humilhações constantes cometidas por parentes com os quais foi obrigada a permanecer no início de sua vida.

Apesar da pouca idade, no entanto, Jane Eyre não se curva perante à rejeição de seus opressores. Embora ela sofra os castigos cruéis da sua tia postiça, Sra. Reed, e as pancadas do seu primo, John Reed, seu espírito resiste aos maus-tratos de forma impulsiva e ríspida. Ao ousar falar seus pensamentos e expressar seu descontentamento com tanto vigor, a personagem que a obra de Brontë nos apresenta não é uma submissa jovem dama, mas sim uma menina extremamente perspicaz para sua idade, firme aos seus princípios e de natureza determinada.

(…) não devo gostar daqueles que, não importa o que faça para lhes agradar, insistem em não gostar de mim; devo resistir aqueles que me castigam injustamente.

Através da escrita fenomenal da Charlotte Brontë, é impossível não ser completamente envolvido pela jornada de Jane Eyre. Acompanhar essa protagonista da infância a vida adulta é uma satisfação, assim como observar que o seu caráter e resiliência não mudam, mas se solidificam e amadurecem. Da mesma maneira, a nossa percepção sobre personagens e fatos altera-se constantemente com o passar das páginas, afinal você está diante de um livro recheado de reviravoltas, revelações, sentimentos, reflexões e interpretações. Portanto, caro leitor, esse não é um livro que corre o risco de se tornar enfadonho ou maçante: a leitura é totalmente imersiva e vai capturar até o menor resquício de sua atenção.

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“Jane Eyre”, minissérie de 2006, é considerada uma das melhores adaptações do clássico.

Depois de escrever um romance atemporal repleto de significado, não é nenhuma surpresa Charlotte Brontë ser reconhecida como uma mulher de ideias fortes. Após a primeira versão de seu romance ter sido rejeitada graças ao preconceito pelas escritoras mulheres, a autora britânica decidiu utilizar um pseudônimo masculino: Currer Bell. Assim, o livro foi logo publicado e obteve enorme reconhecimento, chegando a ser considerado o melhor da temporada por diversos críticos. Não tardou, porém, para que a identidade do autor fosse questionada, pois acreditava-se que diversos anseios e desejos descritos na obra não poderiam ter sido escritos por um homem.

Não é apenas por se tratar de uma autobiografia fictícia e narrada em primeira pessoa por uma mulher que muitos contestaram o fato da autoria do livro supostamente pertencer a um homem. Jane Eyre é, afinal, uma imagem real com ambições que não eram bem vistas por grande parte dos cidadãos da época, mas isso não impediu que diversas mulheres se reconhecessem nessa heroína. Além de representar uma figura com determinação de ferro, Jane é uma mulher que busca – ou mesmo necessita – de liberdade e independência. Não por capricho, mas pela mesma razão que os seres humanos precisam de ar: a nossa natureza exige.

Desejava liberdade, ansiava pela liberdade; pela liberdade rezei uma oração, que pareceu se dispensar no vento suave. Abandonei-a e fiz uma súplica mais humilde: por mudança, por estímulo. Esse pedido também pareceu ser varrido para o espaço.

– Então – exclamei, meio desesperada -, dê-me pelo menos uma nova servidão!

Sem dúvidas, Jane Eyre é uma das melhores protagonistas da literatura mundial e acompanhar sua jornada é simplesmente sensacional. Argumentadora nata e com uma compreensão de mundo astuta, em nenhum momento nos sentimos enfadados por seu percurso de descobertas, percas e encontros inesquecíveis. Na verdade, ao final do livro, você certamente vai desejar ter passado mais tempo na companhia de uma personalidade tão cativante. Mas, a alegria de ter vivido tantas emoções é inestimável, assim como observar que a Jane Eyre – em seus termos – é finalmente livre e desimpedida para fazer as próprias escolhas.

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Não devo deixar de elogiar também os personagens secundários da trama. Ao longo da narrativa, o leitor vai conhecer pessoas incríveis, distintas e cheias de nuances. Possivelmente, você vai amar algumas e adquirir completa aversão a outras, mas enxergar tantas figuras interessantes pelo olhar atento da nossa heroína é, com certeza, a melhor parte. Afinal, de uma maneira ou de outra, todos eles vão contribuir para desenvolver sua personalidade e trazer à tona seus pensamentos. Não penso, contudo, que algum deles poderia alterar as convicções da Jane, pois essas são firmes e acompanhadas de muita determinação.

Tem-se a crença de que as mulheres, em geral, são bastante calmas, mas as mulheres sentem as mesmas coisas que os homens. Precisam exercitar suas faculdades e ter um campo para expandi-las, como seus irmãos costumam fazer. Elas sofrem de uma restrição, tão rígida, e de uma estagnação tão absoluta, como os homens sofreriam se vivessem na mesma situação. É um pensamento estreito dos seres mais privilegiados do sexo masculino dizer que as mulheres precisam ficar isoladas do mundo para fazer pudins e cerzir meias, tocar piano e bordar bolsas. É fora de propósito condená-las, ou rir delas, se elas desejam fazer mais ou aprender mais do que o costume determinou que fosse necessário para pessoas do seu sexo.

Além disso, Charlotte Brontë presenteia o leitor com um romance épico. Através do complicado e vigoroso Sr. Rochester, o senhor da propriedade na qual Jane Eyre deverá exercer a função de educadora, a nossa heroína descobrirá algumas coisas sobre si mesma e, claro, sobre seu anfitrião. No entanto, tendo em vista a situação social da Jane, a complicação de classes aparecerá na relação e novos obstáculos precisarão ser contornados. Um adendo importante sobre a profissão da personagem, aliás, é que o papel da educadora é um tema central de obra de Charlotte Brontë, pois a própria autora chegou a exercer esse papel em casas de família e, por isso, o livro critica a visão tradicional sobre essas profissionais e a falta de humanização no seu tratamento.

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O filme de 2011,”Jane Eyre”, é a adaptação mais recente da obra de Brontë.

Apesar de tantas barreiras, eu não pude deixar de me deleitar com grande parte dos diálogos entre o Sr. Rochester e a Jane Eyre. Entre conversas divertidas e inesquecíveis, eu confesso que adorei acompanhar essa relação  que envolve algumas complexidades, tais como razão, sentimento, ética e princípios. Ao meu ver, ambos os personagens são incrivelmente interessantes e carismáticos – embora os sentimentos dos leitores variem com relação à um deles. Mas, o romance é apenas uma das experiências que compartilhamos com a Jane Eyre e ela é o verdadeiro destaque desse clássico riquíssimo.

– Não sou um anjo – afirmei -; e não serei até morrer: serei eu mesma.

Por que eu amei tanto a Jane Eyre? Bom, simplesmente porque a personagem é muito fiel a si mesma e aos seus princípios. A heroína buscou se libertar de suas amarras e ousou desejar um tipo de liberdade que não era bem visto na época – ao menos, não para uma mulher. Para falar a verdade, ela é uma sobrevivente e alguém que, definitivamente, conquista a admiração do leitor.

No mais, definitivamente vale a pena conferir essa história atemporal e ser completamente cativado por uma das protagonistas mais fascinantes que eu já tive o prazer de conhecer. Ao utilizar uma personagem tão formidável para criticar a hipocrisia de religiosos, a condição da mulher na sociedade e outras tendências da época, Charlotte Brontë realizou algo extraordinário. E, se você gosta de um mistério intrigante, saiba que Jane Eyre – como qualquer boa obra com traços góticos – também traz algo para ser desvendado. Sinceramente, minhas expectativas foram inteiramente superadas com essa leitura e vou carregar a Jane Eyre no coração por muito tempo.

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