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O Morro dos Ventos Uivantes: a narrativa visceral que ultrapassa seu próprio tempo
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O Morro dos Ventos Uivantes: a narrativa visceral que ultrapassa seu próprio tempo

18 Maio 20 6 mins. de leitura
por Mandy Ariani

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Clássico da literatura mundial, O Morro dos Ventos Uivantes atravessa quase dois séculos de histórias sem perder seu valor e se consagra, definitivamente, como uma obra universal. Ao nos presentear com uma trama intensa e profunda, Emily Brontë demonstra sua maestria ao criar personagens tão complexos e fascinantes que o tempo é incapaz de apagar e cuja influência sobrevive – e sobreviverá – por gerações. Afinal, Brontë ultrapassa a promessa de uma simples história de amor para entregar uma narrativa que explora temas como natureza humana, diferenças de classes, preconceito, vingança, tragédia e outros diversos assuntos. Mas, através da relação conturbada de Catherine e Heathcliff, tudo isso é abordado de forma única e jamais vista, despertando os sentimentos mais íntimos de cada leitor.

Se nos tempos atuais é extremamente difícil encontrar algum livro meramente parecido com O Morro dos Ventos Uivantes, então imagine o quão assombroso foi para a sociedade da época ler um livro tão singular. Desaprovado por muitos críticos pela sua violência psicológica e representação cruel da essência humana, a obra da escritora e poetisa britânica não é uma leitura agradável e pode causar, até mesmo, agonia e incômodo. As razões para isso estão no caráter dos próprios personagens que, ao contrário do que vemos em alguns livros da época, não hesitam em se entregar aos piores sentimentos humanos: inveja, ciúme, desejo de vingança e o mais puro egoísmo.

A obra se inicia de forma pouco usual ao nos apresentar o Mr. Lockwood, um homem que passa a ocupar uma propriedade próxima ao Morro dos Ventos Uivantes. Logo, ele se sente atraído pela moradia vizinha e toda a aura de infelicidade que habita no lugar. É a partir do interesse desse personagem que o leitor vai embarcar em um jornada perturbadora, mas que valerá cada segundo.

O enredo cativa a atenção do leitor ao contar a história dos antigos moradores do Morro dos Ventos Uivantes, que eram formados por uma família alegre e bem abastarda. Um dia, no entanto, O Mr. Earnshaw, o chefe da família, traz um garotinho maltrapilho de suas viagens que é caracterizado pelos próprios personagens como alguém sujo e com características de “cigano”, ou seja, ele não é descrito como um exemplo de cidadão para a época e chega a ser odiado por suas origens.

Não tenha medo, é só um menino… embora a vilania esteja estampada na sua cara. Não seria um benefício para a região enforcá-lo imediatamente, antes que mostre nas ações o mal que mostra no rosto?

Apesar disso, Mr. Earnshaw dedica ao garotinho, Heathcliff, a maior parte de seus afetos. Não tarda, então, para que seus dois filhos, Catherine e Hindley, sintam emoções contraditórias com relação ao recém chegado. Enquanto Hindley o humilha de diversas maneiras e sente a perca do afeto de seu pai, Catherine torna-se cada vez mais inseparável de Heathcliff.

Ao trazer um protagonista de ancestralidade duvidosa e julgado por sua etnia ao longo da história, Emily Brontë desenvolve um assunto pouco ou nada explorado pelas autoras de sua geração em situações semelhantes às suas. O menino, Heathcliff, sofre formas de preconceito similares aos do nosso tempo ao ser julgado como um marginal e uma criatura má. Decerto, o tratamento humilhante torna-se uma das razões pelo seu desejo de vingança, mas não o único.

Catherine (ou Cathy) é a única capaz de lidar com o temperamento difícil de Heathcliff. Assim como protagonistas como Emma (Jane Austen) ou Scarlett O’Hara (Margaret Mitchell), Cathy demonstra seu caráter egoísta, arrogante e manipulador. Criada para ser uma dama e mimada por todos, a heroína de Brontë não é muito virtuosa e também se mostra uma personagem complexa na maior parte do tempo. Seu irmão adotivo é uma das razões de sua felicidade, mas ela compreende suas diferenças sociais e sabe que não poderia se casar com ele.

© Material de divulgação passível de direitos autorais.

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O Morro dos Ventos Uivantes recebeu diversas adaptações. Na imagem, está a versão de 1992 por Ralph Fiennes e Juliette Binoche.

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Quando Cathy decide se casar com Edgar Linton, um excelente partido aos olhos da sociedade inglesa, a narrativa adquire tons mais sombrios e Heathcliff decide ir embora. Anos depois, contudo, ele volta extremamente rico e pronto para se vingar de todos que lhe causaram algum sofrimento. Nesse cenário, o leitor passará por uma jornada agonizante sem pretensão de ser feliz ou romântica. Apesar de ser considerado uma trágica história de amor e ódio, O Morro dos Ventos Uivantes é sobre a natureza humana e nossa capacidade de realizar atitudes condenáveis conforme nossas experiências prévias. Com muitas reflexões sobre caráter, durante essa leitura é impossível não ser completamente capturado pelo mundo proposto pela autora.

Sem sombra de dúvidas, os personagens são o ponto alto desse livro memorável e tentar desvendá-los é imensamente complicado. Além de Heathcliff e Cathy, o leitor vai presenciar diversas personalidades muito bem construídas que nos fazem mudar de opinião enquanto tentamos compreender suas motivações. O universo de Brontë é carregado por atmosfera sentimentos fortes e apenas lendo você poderá entender a força da relação de um dos casais mais marcantes da literatura, Heathcliff e Cathy.

Essa é uma história de amor? Na minha opinião sim, mas também é marcada por ódio, mágoa, preconceitos e – eventualmente – obsessão. Embora você sinta os sentimentos fortes de devoção entre Heathcliff e Cathy que morreriam um pelo outro, essa relação não é pura e acaba sendo fragilizada por diversos infortúnios e um poderoso desejo de vingança.

Nunca lhe confessei o meu amor com palavras, mas se os olhos falam, o último dos tolos poderia verificar que eu estava totalmente apaixonado.

Além disso, não posso deixar de falar dos traços góticos e melancólicos presentes na obra. Com cenários sombrios e uma trama que evoca o horror, é improvável ler essa história e não se encantar pela escrita de Emily Brontë. Em seu único livro, a autora nos mostra um cuidado absoluto com todas as nuances de sua  narrativa que consegue combinar elementos góticos e lúgubres com maestria, além de trazer também tons sobrenaturais de maneira implícita e instigante. Tudo isso se relaciona muito bem com os personagens e as situações vivenciadas ao longo da trama, gerando uma das histórias mais completas que eu já tive o prazer de ler.

© Material de divulgação passível de direitos autorais.

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Em sua música “Wuthering Heights“, Kate Bush encena a Catherine e faz uma releitura incrível dos traços góticos e lúgubres presentes na obra de Brontë.

No mais, eu posso dizer que O Morro dos Ventos Uivantes tornou-se um marco na minha vida enquanto leitora. O livro de Emily Brontë me fez refletir sobre a natureza humana como nenhum outro e despertou sentimentos intensos e conflitantes ao longo de toda a leitura, superando completamente minhas expectativas e me presenteando com um final que, na minha concepção, não foi nada além de perfeito. Assim como a maioria dos sentimentos humanos, essa é uma obra com dimensões muito profundas que merece ser lida e apreciada por todos que ousarem embarcar nessa jornada. Com personagens arrebatadores, ambientes intrigantes e tópicos extremamente relevantes, todos devem ler esse livro ao menos uma vez na vida.

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