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21 Lições para o Século 21

20 jul 19 6 mins. de leitura
por Ricardo Vergueiro

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Título 21 Lições para o Século 21
Autor(a) Yuval Harari
Tradutor(a) Paulo Geiger
Editora Companhia das Letras
Páginas 446
Ano 2018
O novo livro do autor de Sapiens e Homo Deus explora as grandes questões do presente e o que podemos fazer para melhorá-lo. Como podemos nos proteger de guerras nucleares, cataclismos ambientais e crises tecnológicas? O que fazer sobre a epidemia de fake news ou a ameaça do terrorismo? O que devemos ensinar aos nossos filhos? Em Sapiens, Yuval Noah Harari mostrou de onde viemos; em Homo Deus, para onde vamos. 21 lições para o século 21 explora o presente e nos conduz por uma fascinante jornada pelos assuntos prementes da atualidade. Seu novo livro trata sobre o desafio de manter o foco coletivo e individual em face a mudanças frequentes e desconcertantes. Seríamos ainda capazes de entender o mundo que criamos?

O historiador israelense Yuval Noah Harari ficou mundialmente conhecido com os best-sellers Sapiens: Uma breve história da humanidade e Home Deus – Uma breve história do amanhã. Mas enquanto nas obras anteriores o pensador escolhera enfocar o ontem (Sapiens) e o amanhã (Home Deus) da raça humana, em 21 Lições para o Século 21, Harari lança um olhar aguçado sob nosso presente, abordando nossos conflitos e desafios contemporâneos.

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Trata-se de uma coleção de ensaios nascidos a partir da perguntas coletadas ao longo dos últimos anos pelo historiador, feitas por jornalistas, leitores e colegas de cátedra na Universidade Hebraica de Jerusalém. Na leitura, tive a impressão de estar assistindo a uma palestra. Ele usa exemplos bem cotidianos e analogias interessantes, em tom de conversa mesmo.

Ao primeiro contato, você se dá conta de que tem em mãos uma obra densa. Nenhum assunto ou reflexão é tomado de forma superficial, e Harari não deixa pontas soltas. Ele aborda problemáticas atualíssimas, como a ameaça de guerras nucleares, equilíbrio mental, aquecimento global, terrorismo e novos paradigmas tecnológicos. Porém, apesar da quantidade de temas complexos, impressiona a capacidade que tem de ligar os pontos de maneira clara, objetiva, fácil de assimilar e (mais notável ainda) muito prazerosa.

Ele começa abordando a desilusão das sociedades contemporâneas com as democracias liberais ao redor do mundo. Localiza o início do processo com a crise financeira de 2008, a partir da qual o mundo foi aumentando gradativamente sua desconfiança em relação à globalização.

Ainda que milhões de pessoas tenham saído da pobreza e ascendido à classe média em muitos países, após o estouro da bolha financeira e a crise das hipotecas nos EUA, com o consequente refluxo dos mercados, a percepção geral foi de que as promessas da tal globalização ficaram aquém do esperado. Economias entraram em recessão e os movimentos de resistência à imigração e a acordos de livre comércio começaram a crescer em muitos países.

As próximas décadas serão, portanto, caracterizadas por um intenso exame de consciência e pela formulação de novos modelos sociais e políticos.

O historiador alerta para o fato de que a narrativa liberal vem perdendo seu status hegemônico entre as grandes economias. Modelos não liberais de democracia, ou mesmo governos com “mão de ferro”, passaram a ganhar um peso geopolítico no tabuleiro das grandes potências. Embora tais sinais, juntamente com a ascensão da extrema direita, representem um alerta, o Harari mantém-se longe de qualquer visão catastrófica.

Como a pessoa que imagina que uma forte dor de cabeça é sinal de tumor cerebral terminal, muitos liberais temem que o Brexit e a ascensão de Donald Trump pressagiam o fim da civilização.

Outra questão de peso abordada é a vida em sociedade e o mercado de trabalho, que sentirão nos próximos anos o impacto irreversível de uma grande revolução: o casamento das tecnologias da informação com a biotecnologia.

As IAs – Inteligência Artificial – vem substituindo o trabalho humano em frentes cada vez mais amplas. Um exemplo que resume bem a problemática: já não se fala atualmente dos robôs presentes na indústria automobilística, mas sim do impacto de aplicativos como o Uber e, muito em breve, da chegada dos veículos autônomos. Ainda dentro do exemplo, enquanto no século XX os motoristas profissionais das mais diversas categorias sindicalizaram-se para não serem explorados, agora o desafio será lutarem para não serem esquecidos, para não se tornarem obsoletos.

No século XXI, o desafio apresentado ao gênero humano pela tecnologia da informação e pela biotecnologia é indubitavelmente muito maior do que o desafio que representaram, em época anterior, os motores a vapor, as ferrovias e a eletricidade.

Yuval Harari lembra a proposta da Renda Básica Universal (RBU), a ideia de tributar as corporações bilionárias detentoras de algoritmos e robôs como forma de prover uma renda que atenda às necessidades básicas das populações excluídas por processos mais radicais de automação, em muitos casos, oferecendo um tempo para profissionalização em outras atividades. Contudo, ele alerta que há uma dificuldade a ser considerada: o descompasso entre a velocidade dos avanços tecnológicos e o tempo de implantação de qualquer programa governamental.

[…] não temos certeza se a economia do futuro vai precisar de nós, mesmo como consumidores. Máquinas e computadores poderiam fazer isso também. Em teoria, pode-se ter uma economia na qual uma corporação de mineração produz e vende ferro para uma corporação de robótica, a corporação de robótica produz e vende robôs para a corporação de mineração, que extrai mais ferro, que é usado para produzir mais robôs, e assim por diante.

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Com uma escrita clara, objetiva e agradável, Harari consegue dosar bem as passagens mais didáticas do livro sem comprometer sua prosa fluida e bem amparada em pesquisa bibliográfica.

Hoje, o 1% mais rico é dono de metade da riqueza do mundo. Ainda mais alarmante, as cem pessoas mais ricas possuem juntas mais do que as 4 bilhões mais pobres. […] aprimoramentos em biotecnologia poderiam possibilitar que a desigualdade econômica se traduza em desigualdade biológica.

Uma questão recorrente na pauta política mundial é o terrorismo. Segundo o autor, o alcance da ameaça terrorista tem sido superestimado, e por duas razões em especial: a necessidade de resposta rápida por parte dos governos e amplificação dos efeitos dos ataques gerada pela mídia. Como resultado, os terroristas atraem mais atenção dos governos com o medo que disseminam (e que paralisa milhões de pessoas) do que com as mortes que provocam.

As reações midiáticas tornariam as consequências ainda mais nocivas, pelo impacto gerado também nas relações internacionais. E quando se considera a questão nuclear, e a potencial perda de controle sobre as tecnologias de enriquecimento de urânio, a perturbação sobe mais um nível.

[…] o terrorismo nuclear, o ciberterrorismo ou o bioterrorismo representariam, no futuro, uma ameaça muito mais séria, e exigiriam uma reação mais drástica dos governos.

Outro fragilidade abordada pelo autor é nosso conceito de livre-arbítrio em tempos de Big Data. A ideia de liberdade precisaria ser revista à luz dos algoritmos, as verdadeiras “autoridades” por detrás de nossas escolhas e validação de conteúdos. Quando o que está em jogo é um resumo de nossas preferências, eles talvez já nos conheçam melhor do que nós mesmos.

A questão do impacto avassalador das novas tecnologias também é abordado pelo viés da comunicação. Harari não deixa de fora o fenômeno midiático mais comentado dos últimos tempos (e já bem conhecido dos brasileiros em razão das últimas eleições): as fake news.

Os humanos sempre viveram na era da pós-verdade. O Homo sapiens é uma espécie da pós-verdade, cujo poder depende de criar ficções e acreditar nelas.

Ele diz que, por milênios, narrativas sobre milagres, demônios e bruxas, por exemplo, sempre circularam pelas redes sociais humanas, e eram tidas como “fatos” por muita gente. A novidade, talvez, seja a percepção atual de que evidências científicas como o aquecimento global sejam, estas sim, fakes! Em razão da atomização e fragmentação aceleradas de fontes e notícias, estamos tragicamente expostos ao risco de leituras enviesadas da realidade. E pior, trocando os sinais, ou seja, transformando “terra plana” em verdade e aquecimento global em unicórnio.

As mudanças climáticas, inclusive, merecem um bom número de citações ao longo de toda a obra. Para o escritor, ao contrário de uma guerra nuclear (um risco potencial), o drama ecológico é uma realidade bem presente.

[…] a menos que cortemos dramaticamente a emissão de gases de efeito estufa nos próximos vinte anos, a temperatura média global se elevará em 2ºC, o que resultará na expansão de desertos, no desaparecimento de calotas de gelo, na elevação dos oceanos e em maior recorrência de eventos climáticos extremos, como furações e tufões

Mas as reflexões de Yuval Harari vão muito além do meio ambiente, das tecnologias e da vida em sociedade. Ele desenvolve análises igualmente cuidadosas sobre as religiões, os movimentos migratórios, a questão dos refugiados, a engenharia genética e ainda todas as implicações éticas que, de uma forma ou de outra, costuram todos os temas numa só colcha de retalhos humana.

Aqueles que tiverem fôlego para suas mais de 400 páginas não se arrependerão. Com certeza, terminarão a leitura mais conscientes sobre os principais temas e debates contemporâneos. E, por que não dizer, também mais preparados para viverem o século 21. Quanto a mim, ao fechar o livro, o que senti foi inquietação. A estranha inquietação de ter sido alertado.

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