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A Vida Invisível de Eurídice Gusmão

28 jan 20 4 mins. de leitura
por Mandy Ariani

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Título A Vida Invisível de Eurídice Gusmão
Autor(a) Martha Batalha
Tradutor(a) -
Editora Companhia das Letras
Páginas 192
Ano 2016
Guida Gusmão desaparece da casa dos pais sem deixar notícias, enquanto sua irmã Eurídice se torna uma dona de casa exemplar. Mas nenhuma das duas parece muito feliz nas suas escolhas. A realidade das Gusmão é parecida com a de inúmeras mulheres nascidas no Rio de Janeiro nos anos 1920 e criadas para serem boas esposas. São as nossas mães, avós, bisavós; invisíveis em maior ou menor grau, que não puderam protagonizar as próprias vidas, mas que agora são as personagens principais do primeiro romance de Martha Batalha. Uma promessa da ficção brasileira que chega afiadíssima para contar uma infinidade de histórias bem costuradas e impossíveis de largar.

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, escrito pela brasileira Martha Batalha, nos presenteia com uma raridade em forma de história, na qual os sentimentos dos personagens se conectam aos do próprio leitor, causando sensações inesperadas e reflexões inevitáveis – principalmente se você for uma mulher. Afinal, se ainda hoje espera-se que as mulheres garantam a satisfação completa só após ter filhos e um matrimônio, no Brasil do século XX a pressão social era muito maior.

Em um mundo marcado pela submissão feminina, Eurídice Gusmão e sua irmã, Guida Gusmão, tinham um papel muito claro: serem discretas, educadas, boas donas de casa e, eventualmente, encontrar um bom casamento. Então, apesar de Eurídice ter muita vontade de se afastar desse papel e viver os potenciais que descobre ao longo da vida, os “nãos” que recebia sempre foram um empecilho em seu caminho para se tornar mais ela mesma e menos a boa moça que todos esperavam.

Porque Eurídice, vejam vocês, era uma mulher brilhante. Se lhe dessem cálculos elaborados ela projetaria pontes. Se lhe dessem um laboratório ela inventaria vacinas. Se lhe dessem páginas brancas ela escreveria clássicos. Mas o que lhe deram foram cuecas sujas, que Eurídice lavou muito rápido e muito bem, sentando-se em seguida no sofá, olhando as unhas e pensando no que deveria pensar.

Ao contrário de Eurídice, porém, sua irmã Guida estava feliz em seguir a vida que seus pais esperavam. A jovem se envolve com um rapaz que, inicialmente, parece ser o “partido” ideal, sendo membro de uma boa família e um estudante de medicina. Contudo, as coisas mudam drasticamente e após decidir seguir um caminho incerto, Guida foge de casa e passa a ter uma vida muito difícil.

Nesse contexto, Eurídice decide ser uma filha excelente e moça exemplar para não trazer aos pais mais sofrimento. Mas, o problema é que nesse processo nossa protagonista é ainda mais silenciada, privilegiando sempre a vontade dos outros e silenciando seus desejos. Assim, não tarda para que ela se case com Antenor, tenhas filhos e se torne uma dona de casa. Apesar disso, ela não vai esquecer tão facilmente de suas ambições.

A partir de uma premissa que se conecta com a de muitas mulheres, é impossível não traçar paralelos e fazer questionamentos quando lemos a história das irmãs Gusmão. O livro da Martha Batalha é muito íntimo e causa um misto emoções, que vão desde o incômodo com algumas situações até a esperança de que nossas heroínas transcendam suas dificuldades e possam ser mais livres.

[…] Iam achar que ele era homem de menos porque a mulher trabalhava demais.

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Se eu pudesse definir A Vida Invisível de Eurídice Gusmão com apenas uma palavra, eu usaria “real”. A narrativa nos traz personagens reais que estão longe de serem perfeitos e vivenciam situações muito palpáveis, mas apesar disso não se engane: essa obra passa longe de ser maçante ou monótona.  Através de uma escrita impecável, Martha Batalha transforma personagens aparentemente comuns em pessoas super interessantes. O livro nos traz a sensação de que todos possuem uma história que merece ser contada, e a autora faz isso com maestria.

Com a vida de Eurídice e de outras personagens, nós entendemos a importância de ter uma escolha e liberdade para fazê-la. A trajetória não foi fácil para as irmãs Gusmão e outras personagens dessa narrativa, mas a sua resiliência e atitude são notáveis e, apesar da diferença temporal, nós conseguimos nos visualizar em diversas situações pelas quais elas passam. Inclusive, é impossível não sentir incômodo pela maneira natural com que assuntos sérios são mencionados, como estupro, abuso, preconceito e outros.

Havia a convicção de que Eurídice só podia ser levada a sério quando dizia que o jantar estava na mesa, ou que era hora de acordar para a escola.

Com protagonistas muito humanas e um enredo cheio de nuances, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão é um achado para os leitores que gostam de narrativas sensíveis, mas que não deixam de mostrar a violência e pensar no social. A obra de Martha Batalha conta algo que as pessoas não estão acostumadas a ouvir, e demonstra que nem sempre ter um marido e filhos resultará na felicidade. Agora, com esse livro, Eurídice finalmente recebe toda a atenção merecida e compartilha seu verdadeiro eu conosco – mulheres que talvez a entendam.

© Material de divulgação passível de direitos autorais.

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Filme “A Vida Invisível”, inspirado no livro de Martha Batalha.

Em 2019, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão ganhou uma adaptação para os cinemas, e conquistou muitos fãs! O filme foca na relação entre as irmãs Gusmão e se difere bastante do livro em alguns aspectos. Você já assistiu? Compartilha sua opinião com a gente!

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