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Resenhas

A Vida Secreta dos Animais

03 set 19 6 mins. de leitura
por Ricardo Vergueiro
Esta publicação é fruto de uma PARCERIA

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Título A vida secreta dos animais
Autor(a) Peter Wohlleben
Tradutor(a) Sonali Bertuol
Editora Sextante
Páginas 256
Ano 2019
Neste livro, Peter Wohlleben segue o bem-sucedido modelo de A vida secreta das arvores e compartilha conosco fascinantes histórias sobre as emoções, os sentimentos e a inteligência dos animais que nos cercam. Através de casos impressionantes de porcos leais, pássaros que traem as companheiras e galos conspiradores, ele mescla recentes descobertas cientificas a própria experiência como engenheiro florestal para mostrar como os animais interagem com o mundo. Cavalos sentem vergonha, cervos guardam luto por membros do grupo e cabras educam seus filhos. Corvos chamam os amigos pelo nome, ratos se arrependem das mas decisões e borboletas escolhem os melhores lugares para seus filhos crescerem. Embora diferentes de nós de muitas maneiras, eles são, ao mesmo tempo, mais parecidos do que poderíamos imaginar.

Hoje vamos falar de um lançamento que vai agradar especialmente (mas não somente) aqueles leitores apaixonados por bichos e natureza. Na esteira do sucesso, A Vida Secreta das Árvores é um best-seller alemão traduzido para 32 idiomas. E, agora, a Sextante publica no Brasil A Vida Secreta dos Animais, de Peter Wohlleben.

Desta vez o autor traz uma combinação de sua experiência como engenheiro florestal e ecologista com pesquisas recentes nas áreas de estudo do comportamento animal. Faz isso com competência e equilíbrio, pois o livro é agradável e realmente fácil de ler.

Para além do público esperado (de donos de pets à ativistas veganos), Wohlleben deixa clara sua intenção de “converter” aqueles que ainda duvidam da capacidade dos animais de manifestarem sentimentos como amor, felicidade e compaixão.

Ele inicia lembrando que, assim  como acontece com humanos, os hormônios estão na base dos sentimentos observados nos bichos. A oxitocina, por exemplo, prepara a fêmea para o sentimento maternal. Ainda que o amor em si não seja inato, as condições para essa manifestação estão dadas pela natureza.

[…] A mãe começa a conhecer o cabrito quando o lambe para retirar a membrana fetal que envolve o corpo dele. Esse processo de limpeza intensifica o vínculo. A mãe solta alguns balidos carinhosos, e o filhote responde baixinho em um tom agudo. Nesse momento, eles assimilam as assinaturas vocais um do outro.

O autor descreve vários relatos apaixonantes. Como por o exemplo o da mãe-esquilo que carrega exausta seu filho nas costas por longas distâncias, sem intenção de descansar até encontrar um lugar seguro. Ou ainda da buldogue Baby, que virou manchete de jornal depois de adotar seis filhotes de javali cuja mãe havia sido abatida por caçadores. Falando de javalis, inclusive, sabia que eles são capazes de reconhecer cada um de seus familiares, mesmos os parentes mais distantes? O mesmo vale para o porco doméstico, de quem o javali é ancestral.

[…] uma velha leitoa dera à luz 160 filhotes e lhes ensinara a fazer ninhos de palha. Quando suas filhas alcançaram a idade adulta, ela as ajudou a se preparar para o parto. […] Se a ciência tem tantas informações sobre a inteligência dos suínos, por que elas não são amplamente veiculadas? Presumo que seja por causa do consumo de carne de porco. Se as pessoas descobrirem que tipo de animal estão comendo, perderão o apetite. É mais ou menos o que acontece com os primatas: quem seria capaz de comer carne de macaco?

Em sua empreitada legítima e louvável, porém, o ecologista Wohlleben exagera na dose em certos trechos, com extrapolações claramente movidas pela paixão que tem pelo tema. Mesmo entendendo se tratar de um recurso retórico, a mim soou estranho como ele usa sem reservas a palavra “sentimento” para descrever inteligências e capacidades observadas no reino animal.

Um exemplo é quando começa a falar de uma espécie de fungo que, em experiências realizadas, tem demonstrado um tipo de inteligência espacial. Colocado num labirinto com duas saídas – uma delas com alimento como recompensa – o organismo unicelular demonstrou ser capaz de “gravar” a escolha mais vantajosa.

Em outro experimento, pesquisadores japoneses construíram outro labirinto, mas com o formato das vias de tráfego de Tóquio. Pois o fungo iniciou a mesma jornada em direção à saída que o primeiro, mas usando o caminho mais curto, de acordo com o traçado das “ruas” simuladas na maquete.

[…] portanto, se organismos unicelulares como os do exemplo anterior têm memória espacial e são capazes de realizar tarefas tão complexas, quantos sentimentos e capacidades podem comportar animais com mais de 250 mil células cerebrais, como a mosca-das-frutas?

Mas e nos casos onde há sentimentos comprovados? Em cães e gatos, como é bem sabido, a ligação afetiva pode acontecer em qualquer fase da vida, muito depois do desmame do filhote. Wohlleben afirma que, na fase adulta, essa relação se daria por “vontade própria”. Talvez você não veja extrapolação aqui, tudo bem, mas sigamos em frente.

O autor afirma que existem “inúmeros exemplos de cães e gatos que praticamente forçam a criação de vínculos com seres humanos” – ele não diz, exatamente, o que seria “forçar”. Na tentativa de explicar isso melhor, diz então que dará como exemplo o comportamento de animais selvagens. A aproximação destes de um ser humano se dá, quando não em busca de alimentos, por um fator que atestaria uma complexidade emocional: a curiosidade.

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Eu e minha mulher estávamos acampando nas montanhas do Parque Nacional de Sarek… Enquanto tomávamos o café da manhã, mais renas foram chegando, até ficarmos rodeados pela manada inteira – cerca de 300 animais. […] Dava para perceber claramente que alguns membros estavam muito interessados em nós. De olhos arregalados e narinas abertas, tentavam entender o que éramos.

 Ok. Mas resta um “ponta” ainda solta lá atrás. Essa observação sobre a curiosidade nos animais selvagens, então, serviria para explicar os “inúmeros exemplos de cães e gatos que praticamente forçam a criação de vínculos”? A forma como o autor transita de uma categoria para outra (selvagem X doméstico) induz que pensemos assim. Mas eis que, alguns parágrafos à frente, o Wohlleben volta a falar dos “domésticos”, agora para nos lembrar como eles foram adaptados ao longo de muitas gerações – via reprodução seletiva – para agradar aos humanos em aparência e em comportamento.

Não resta dúvida que o buldogue francês foi criado para ser um animal de colo, uma espécie de bicho de pelúcia vivo. […] Ao que tudo indica, ele adora carinho, portanto homem e animal obtêm aquilo que desejam.

Fica a pergunta: em que mesmo a curiosidade das renas do Parque Sarek esclarece as razões pelas quais animais domésticos (em especial os alterados geneticamente) procuram o contato humano? Enfim, às vezes o autor parece apressado na tentativa de lidar com sua ampla bagagem de relatos pessoais (e passionais) enquanto se esforça para entregar “mastigado” os vários dados de estudos que cita a cada duas páginas, em média.

De forma alguma a inteligência e as habilidades de uma mosca-das-frutas devem ser desprezadas! Ou ainda que não haja pontos de ligação entre a vida de animais selvagens e domésticos passíveis de serem comprovados empiricamente. O ponto onde quero chegar é: os estudos citados na obra são pura decoração. O que sobressai é o diálogo intimista e reflexivo do autor com o leitor, em especial suas observações enquanto gestor de um parque florestal.

Cervos, corsas ou javalis são como os humanos: evitam obstáculos. Eles até evitam caminhar na grama ou na mata molhada com tempo chuvoso, e preferem as pistas niveladas que construímos; para eles, são rotas criadas por humanos especificamente para eles. […] Quando os humanos não ajudam, os animais criam esses caminhos no meio da floresta.

 O que fica mesmo da leitura é a beleza indiscutível presente no relato das experiências. Isso não chega a ser um problema, desde que você não esteja à procura de bibliografia mais robusta (e menos apaixonada) com o objetivo de explorar o assunto a fundo, para um trabalho acadêmico, por exemplo. Se este for o caso, melhor ir direto às fontes citadas pelo autor (há um número considerável delas). O mérito de Wohlleben é aquecer os números frios com um texto competente e sentimental.

Mesmo em relação à base bibliográfica, A Vida Secreta dos Animais não impressiona. Não faz nenhum acréscimo significativo ao que já vem sendo divulgado sobre o tema – por exemplo, no livro O Que Sentem os Animais?, da antropóloga Barbara J. King, que li faz uns três anos, mais ou menos.

[…] Acho simplesmente linda a ideia de que as outras espécies não são simples máquinas em que tudo acontece de acordo com mecanismos predefinidos e as ações ocorrem quando os hormônios correspondentes são liberados no organismo.

Ele defende que a ciência é “conservadora” e que “seria melhor acreditar que eles têm sentimentos e passar a evitar que sofram sem necessidade”. Nesse ponto, seu esforço em tornar o tema o mais acessível possível merece reconhecimento.

Se o que você procura são boas histórias sobre a vida animal, então este é um livro que valerá a pena. O que não faltará é uma lista de exemplos tocantes de como a inteligência e a sensibilidade dos animais são ainda um grande desafio para a compreensão humana.

[…] mesmo que as estruturas cerebrais deles sejam diferentes das nossas e que, com isso, eles provavelmente vivenciem as situações de outra maneira, isso não significa que não tenham sentimentos – apenas que é mais difícil imaginar como podem ser os sentimentos deles.

Promover admiração, respeito e – quem sabe – amor genuíno. A leitura de A Vida Secreta dos Animais se torna mais prazerosa quando se entende logo de cara que estamos diante de uma declaração de amor.

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