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Aurora nas Sombras

21 set 19 5 mins. de leitura
por Caique Araujo

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Título Aurora nas Sombras
Autor(a) Fabien Vehlmann & Kerascoët
Tradutor(a) Maria Clara Carneiro
Editora DarkSide Books
Páginas 96
Ano 2019
Um grupo de pequenos seres é obrigado a sair do lugar aconchegante onde mora e iniciar uma luta pela sobrevivência em um mundo terrível. Tudo parece dentro dos conformes, certo? Bem, mais ou menos. A casa deles era o cadáver de uma garotinha estirado no meio da floresta, e o lugar para onde eles vão não é nada mais, nada menos que o mundo que conhecemos como nosso.

Quem nunca ouviu que “não se deve julgar alguém por sua aparência”? Essa questão, inclusive, é levada a prova em muitas obras através de muitas mídias. Seja no cinema, na literatura, na música, etc. Sempre irão existir produtos que contradizem as suas crenças em relação à beleza (ou ausência dela). Este é o caso de Aurora na Sombras. A mais nova graphic novel, publicada pela DarkSide Books, que desafia: “qual é o limite entre o fofo e o aterrorizante?”. Confira a análise completa da obra!

O primeiro contato com Aurora nas Sombras é simplesmente apaixonante. Com uma capa maravilhosa e misteriosa, os pequenos e doces traços se conectam as emoções mais intimas de nossas infâncias. Em uma mistura de Thumbelina com Alice no País das Maravilhas, permitindo uma associação imediata, o traço atrai o leitor de uma forma inexplicável. Mas, até então, nada de incomum. Porém, com a sinopse vem o primeiro (e grande) espanto: “[…] a casa deles era o cadáver de uma garotinha estirado no meio da floresta […]”. A partir deste momento, você está prestes a viver uma experiência que nunca viveu antes.

A graphic novel, escrita por Fabien Vehlmann e ilustrada pela dupla Marie Pommepuy e Sébastian Cosset (sob o pseudônimo Kerascoët), apresenta um “universo infantil” sob uma ótica sombria. Por essa razão, estamos diante do gênero Terror. E, para garantir essa mistura, apresenta uma colisão de dois mundos completamente distintos. Uma ilustração que encanta os olhos pela fofura mesclada a situações macabras inimagináveis para tais traços. Um efeito céu e inferno. Nas mais de 90 páginas acompanhamos Aurora, a líder de criaturas humanoides que são menores que pequenas moscas. E, já no prólogo está a assustadora (e intrigante) revelação. Aurora, assim como os demais são forçados a sair do seu “habitat” (um corpo em decomposição) e obrigados a viver diante os perigos da natureza. Nesta jornada, Aurora decide tomar a frente e auxiliar todos os seus “amigos” a terem a melhor vida que eles podem imaginar.

Deste ponto em diante, é quando o terror cozinha em fogo baixo, mostrando ao leitor, pouco a pouco, a verdade inevitável: é duro sobreviver. E, assim como na evolução da humanidade, o processo de sobrevivência exige certos sacrifícios antes impensados. Sendo essa, inclusive, a linha tênue entre o que é civilizado e o que é selvagem. A narrativa se encontra exatamente no limite invisível que conduz uma sociedade à ordem para, então, extrapolá-lo rumo ao processo individualista. Esse processo irá permitir, uma série de discussões filosóficas a cerca do que está acontecendo dentro deste universo.

Aurora nas Sombras garante muitos aspectos bons. Mas, sem dúvidas, o que mais me chamou atenção, à princípio, foram as belíssimas ilustrações da obra. Artes aquareladas e decisões estéticas que resgatam a sensação de um livro infantil. Seja com as suas cores vibrantes ou com o design dos personagens relacionado as suas características mais intimas. Criando, assim, uma tradução de arquétipos, suficiente para que você saiba identificar um personagem, mesmo que não conheça muito sobre ele. E, preciso destacar, criatividade não falta para traduzir qualquer personalidade. É claro que, ainda, não posso deixar de mencionar o trabalho de composição. A representação do pano de fundo entrega uma vegetação quente e acolhedora que cada vez mais se transforma em um ambiente frio e sem vida. O trabalho dos ilustradores foi impecável.

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Do outro lado, a HQ não peca pelo roteiro e brinca com o mistério. Aliás, uma das coisas mais interessantes sobre o roteiro está em sua sutileza. Primeiro, o leitor começa a visualizar pequenas ações inesperadas (ainda interpretadas como brincadeiras) e, quadro a quadro, evento a evento… os personagens tomam rumos e decisões perturbadoras, garantindo uma intensidade cada vez mais na crueldade em suas ações (sem qualquer motivo aparente). Esta é a sutiliza que falei. Simplesmente acontece. Não tem um porquê. Todos personagens escolhem caminhos naturais a si e, dificilmente, se questionam sobre isso. São o que são. Isto é aterrorizante. Aqui nasce o terror, justamente por entregar algumas características intrínsecas à natureza humana e seu individualismo.

A diferença, talvez, está em Aurora, nossa pequena (e adorável) protagonista. O seu desenvolvimento é uma chave importante para a conclusão da história. A escolha que ela toma parte do seu auto questionamento sobre quem ela precisa ser. Neste momento, o leitor finalmente consegue entender quem são tais criaturas e como traduzi-las. Embora, claro, o quadrinho deixe aberto para interpretações. E, longe de mim querer entregar esta revelação, mas, sem dúvidas, ao chegar na última página o leitor se depara com o ápice da transformação e da crueldade. No final, as condições filosóficas que a obra deixa são inúmeras.

De um lado, cabe a cada um entender quem são os pequenos seres. A minha visão, por exemplo, o livro opta por mostrar como os sentimentos domam cada ser, além de como o domínio dos seres transformam os seus sentimentos. E, a fim de caracterizar esse movimento da melhor forma possível, como já disse, o autor constrói arquétipos bem definidos. Fica, então, a cargo do leitor se questionar se esses seres seriam partes da personalidade da menina morta, ou não. Do outro lado, também cabe a cada um entender o que aconteceu com a pobre menina. Ao longo de algumas páginas, inclusive, a narrativa tenta entregar algumas pequenas pistas, mas elas transformam-se em uma interpretação pessoal (que, diga-se de passagem, pode ser devastadora).

Não é atoa que Autora nas Sombras foi indicada ao Eisner Awards, uma equivalência do OSCAR para os quadrinhos. É uma obra completa que brinca com muitas crenças e ressalta o inferno na inocência infantil. A experiência foi única de leitora e a sensação de acompanhar os eventos “um tanto bizarros” é intrigante. Sem mais delongas (antes que eu entregue revelações cruciais), não há dúvidas de que a edição da Darkside Books faz jus à excelência da obra. Capa dura com sensação aveludada, a diagramação ideal para valorizar cada quadro e o capricho na escolha do papel e da impressão que mantiveram toda a vibrante coloração. Uma edição indispensável para amantes do terror em suas formas mais inusitadas. E, sinceramente, espero que você seja capaz de ter uma boa noite de sono após uma história pra lá de perturbada.

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