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Resenhas

Chiclete

09 nov 19 4 mins. de leitura
por Ricardo Vergueiro

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Título Chiclete
Autor(a) Kim Ki-Taek
Tradutor(a) Yun Jung Im
Editora 7 Letras
Páginas 92
Ano 2018
Traduzido diretamente do idioma original, Chiclete é o segundo livro de poesia coreana publicado pela 7Letras. Esta obra de Kim Ki-Taek se destaca tanto pela originalidade do autor, quanto pela novidade de aproximar o leitor brasileiro de uma cultura vista como distante. Na realidade, por abordar temas essencialmente urbanos, Chiclete pode ser compreendido por qualquer dito “cidadão do mundo”. Sem inibição, a poesia de Ki-taek expõe incômodos, ideias fixas e cenas do cotidiano urbano, atraindo e enredando o leitor em seu estilo único – flexível e aderente tal qual um chiclete.

No âmbito da indústria cultural, a Coréia do Sul conquistou o público brasileiro, nos últimos tempos, em razão do K-pop, um fenômeno musical entre os adolescentes. Como em qualquer parte do mundo, porém, as produções em massa não refletem toda a cultura de um país, e com os sul-coreanos não é diferente. Então, se você quiser destrinchar mais sobre determinada cultura, é interessante “consumir” diversos conteúdos e não só aqueles que estão mais em “alta”.

E o que podemos dizer, então, da literatura sul-coreana? Eu fiquei curioso e interessado por um primeiro contato com essa literatura depois de assistir uma reportagem sobre a visita de alguns escritores da Coreia do Sul à Bienal Internacional do Livro, no Rio de Janeiro. Entre eles, estava Kim Ki-Taek, cuja produção começou a ser traduzida no início do ano.

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Posso dizer que, de modo geral, tive uma boa experiência ao ler Chiclete, sendo a quinta obra do poeta asiático (e a segunda de poesia coreana, publicada pela editora 7Letras). Trata-se do encadeamento de 56 poemas ligados por uma única temática: o cotidiano urbano. O produto “chiclete” exemplifica com perfeição o olhar do autor sobre a vida contemporânea. Seu trabalho é uma espécie de radiografia do microcosmo contido no diálogo secreto entre as pessoas e seus objetos de consumo. Basicamente, tudo o que passa batido no dia a dia é matéria-prima no trabalho de Ki-Taek.

[…] Chiclete encerrado em tantas marcas de dente,
Inumeramente socadas de novo e de novo
Sobre marcas já cravadas
Tendo amassado-as, camada a camada,
dentro do seu diminuto corpo.

O autor procura retratar as relações, inter-relações e conflitos existentes entre o indivíduo e seu cotidiano. O embate com o tempo e o gigantismo sufocante das grandes metrópoles também marca presença com as descrições cruas, racionais e cirúrgicas da realidade. É a tônica preponderante na obra. Ainda assim, contudo, é preciso reconhecer passagens menos originais e mais dignas de um caderno juvenil. Embora, estas não tenham comprometido o livro, algumas construções poéticas são de “calibre” menor, como a seguinte passagem presente em “Olhos”:

[…]Escuridão:
Parede vermelha com veias alastradas
Parede amolecida onde a estampa se move vagarosamente.
Os olhos veem algo incessantemente
Mesmo com as pálpebras cerradas.
Ainda que eu queira descansar um pouco
Ainda que no momento não queira ver nada […]

O autor, nascido numa região próxima da capital Seul, iniciou sua carreira aos 30 anos com a publicação de dois poemas, A Seca e O Corcunda, no Diário Hanguk, jornal que anualmente promove um concurso de poesia que é considerado uma vitrine para novos talentos.

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Um detalhe marcante apontado pela crítica, e que podemos constatar na leitura de seus poemas, é o fato de Kim Ki-Taek denunciar uma espécie de fusão involuntária (e inevitável) entre o “ser” e as “coisas”. Nesse processo, o corpo (o do poeta e dos personagens gerados pelo cotidiano) termina como o habitat para outros corpos, como descrito, por exemplo, no poema Acidente de Trânsito. Nele, do encontro de fluidos corporais com o para-brisa de um carro, uma nova e improvável “criatura urbana” ganha forma, e depois desaparece na banalidade da vida diária:

[…] E a casca ricocheteou-se como fragmentos de projétil.
O sangue que fervia sempre que via uma luz
O sangue que se projetava em direção à luz
Agora se agarra forte ao vidro, seu novo corpo,
Com o seu apego à vida endurecida como grude.
E que não se deixa limpar, por mais que se limpe.

A chegada de autores sul-coreanos ao mercado literário brasileiro é muito bem-vinda e merece destaque. Algumas iniciativas importantes já foram tomadas para promover essa aproximação, coordenadas especialmente pelo LTI Korea, uma instituição criada pelo governo daquele país para difundir a cultura e as artes coreanas pelo mundo (no Brasil, a comunidade sul-coreana gira em torno de 50 mil pessoas).

Um dos resultados dessa iniciativa, foi a participação, na 19ª Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, de escritores como Kang Byoung Yoong (Pepino de Alumínio, publicado pela Topbooks), Park Min-Gyu (ainda não publicado no Brasil) e o próprio Ki-Taek, que na ocasião conversou com jornalistas e blogueiros sobre a publicação de Chiclete.

A ausência de tradutores é ainda um obstáculo evidente para que mais autores sul-coreanos sejam conhecidos pelo público leitor brasileiro. E para que o número de traduções cresça é preciso, naturalmente, que haja uma expectativa mercadológica de boas vendas. Contudo, se atualmente não está fácil para alguns dos gêneros mais consumidos, o dizer, então, de poesias do leste asiático? Mesmo assim, há esperanças de que o trabalho da LTI Korea, junto às editoras brasileiras, traga mais desses autores.

O chiclete possui uma elasticidade que conserva o seu estado próprio, e por isso não é destruído. Essa elasticidade exige dos dentes uma mastigação mais forte e cruel. A razão de se considerar que mascar chiclete pode ser uma brincadeira é que ali só há o ritmo repetitivo de mastigar e ser mastigado, sem que exista como resultado o matar e morrer, ou o vencer e perder. O chiclete intermedeia o desejo de mastigar a carne do outro.- Kim Ki-Taek.

A sensibilidade peculiar com que Kim Ki-Taek “mastiga” nossas problemáticas diárias e universais é, por si só, razão mais do que suficiente para procurá-lo e lê-lo. Mas e quanto a você, caro leitor, daria uma chance para a poesia coreana? Nos diga sua opinião nos comentários!

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