Sentimento de Leitor

Juramos solenemente fazer boas recomendações
Imagem da Thumbnail para Churchill & Orwell – A luta pela liberdade
Resenhas

Churchill & Orwell – A luta pela liberdade

12 dez 19 5 mins. de leitura
por Ricardo Vergueiro

publicidade

Título Churchill & Orwell – A luta pela liberdade
Autor(a) Thomas E. Ricks
Tradutor(a) Rodrigo Lacerda
Editora Zahar
Páginas 352
Ano 2019
Winston Churchill e George Orwell foram homens muito diferentes, mas foram também, nas expressões do historiador Simon Schama, aliados muitíssimo improváveis e arquitetos do seu tempo. Neste ensaio, Thomas E. Ricks demonstra que a grande questão do século XX não era quem controlava os meios de produção, como Marx julgara. Nem como funcionava a psique humana, como Freud defendera, mas sim como preservar a liberdade do indivíduo num tempo em que o Estado interferia cada vez mais na esfera da vida privada.

Analistas e formadores de opinião da atualidade (os sérios) são unânimes em afirmar que, apesar da internet e da conectividade em nível global, o tribalismo e o sectarismo têm crescido nas últimas décadas. Seja na política ou em matéria de comportamento, brigar a qualquer custo para impor opiniões é uma atitude presente no dia a dia, o que acontece nas redes sociais, nas ruas, nos almoços em família e em diversos outros ambientes. Alguns pensadores resumem tudo isso à uma única palavra: zeitgeist, o espírito de nossa época.

Não sei quanto a você, mas minha cabeça está bem cheia dessa gritaria (extra)polarizada que, na ânsia de destruir um adversário, jura de pé junto ser impossível encontrar pontos de união. Pensando nisso, procurei nos últimos meses por exemplos de personagens que, embora em polos opostos, tivessem características afins, compartilhando alguns valores em comum. Eis então que recebo uma bela indicação: Churchill & Orwell – A luta pela liberdade, do escritor e jornalista Thomas E. Ricks. Uma mistura equilibrada de ensaio e biografia comparada.

Juntos, em meados do século 20, esses dois homens indicaram o caminho, no âmbito político e intelectual, ao responderem às ameaças totalitárias gêmeas do fascismo e do comunismo.

O livro apresenta – e contrapõe – dois personagens marcantes e essenciais da história do século XX. Apesar de terem se destacados em contextos e “arenas” completamente diferentes (e de jamais terem se encontrado), Winston Churchill e George Orwell tiveram como traço marcante de suas vidas o pensamento crítico e a defesa da liberdade acima de qualquer ideologia ou interesse de ocasião.

No dia em que a Grã-Bretanha entrou na Segunda Guerra Mundial, Churchill declarou: “É uma guerra, analisada em sua essência, para gravar, em rochas inabaláveis, os direitos do indivíduo, e é uma guerra para estabelecer e reavivar a estatura humana.” Dois anos depois, asperamente, em seu estilo mais direto, Orwell expressou o mesmo pensamento: “Vivemos numa época em que o indivíduo autônomo está deixando de existir.”

O texto de Ricks é dinâmico e direto, mas de tom reflexivo como todo bom jornalismo literário – durante passagens pelo Wall Street Journal e o Washington Post, em 2000 e 2002, o autor conquistou dois Prêmios Pulitzer. Mesmo imerso numa extensa quantidade de referências bibliográficas, ele dilui com muita habilidade as informações e dados biográficos numa prosa fluida e acessível, sem a menor sombra de academicismo. Além disso, outro mérito do autor é não esconder do leitor a simpatia que sente pelas figuras que retrata.

Winston Churchill (1874-1965) vinha de uma família aristocrática, era um político da direita conservadora e defensor do colonialismo inglês. No outro lado do que podia-se imaginar um “ringue” está Eric Arthur Blair (1903-1950), mais conhecido pelo pseudônimo George Orwell. Pai da mais perturbadora distopia escrita no século XX, o romance 1984 (rivalizado apenas, talvez, pelo Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley), Orwell era anti-imperialista e alinhado ao socialismo.

Enquanto Churchill, em nome do Império Britânico, aventurou-se pela África do Sul durante a Guerra dos Bôeres (1936-1939), Orwell viveu as trincheiras da Guerra Civil Espanhola (1936-1939) ao lados dos socialistas que combatiam o ditador Francisco Franco. Portanto, os dois sentiram na pele os horrores dos conflitos armados enquanto correspondentes de guerra.

Seus caminhos jamais se cruzaram, mas eles se admiravam mutuamente à distância, e, quando chegou o momento de escrever 1984, George Orwell batizou seu protagonista de Winston. Segundo os registros, Churchill gostou tanto do livro que o leu duas vezes.

publicidade

Mas o que personagens de alinhamento político e trajetórias tão diferentes teriam em comum a ponto de serem alvos de uma espécie de biografia comparada? A resposta que o trabalho cuidadoso de Thomas Ricks sintetiza é que ambos carregavam como valor universal a defesa inflexível da liberdade de pensamento e de ação. Não é pouco considerando o momento crítico em que viveram, ou seja, a Segunda Guerra Mundial e o seu panorama histórico: a máquina nazifascista tomava a Europa; a sombra stalinista crescia e avançava pela Eurásia; os britânicos assistiam com melancolia seu poder minguar cedendo lugar a nova superpotência do século, os Estados Unidos.

O trabalho de pesquisa de Ricks também traz destaque e peso equivalentes tanto para os discursos de Churchill quanto aos textos do romancista, cuja a oratória, segundo o autor, nem de longe se igualava à do estadista inglês (e olha que Orwell era conhecido pela qualidade de seus programas de rádio na BBC de Londres!).

O perigo de adotar uma dupla abordagem em relação a esses homens é que a presença de Churchill é por demais sonora e persistente. Observem qualquer evento crucial dos anos 1940 e Churchill estará lá, participando dele, discursando sobre ele, e então, alguns anos mais tarde, escrevendo sobre ele.

O livro segue intercalando episódios mais ou menos conhecidos da vida de ambos com uma análise crítica e apurada dos eventos da época. Passagens que iam, pouco a pouco, exigindo dos homens Churchill e Orwell que cedessem lugar para a construção das figuras míticas que se tornariam. E assim, testemunhamos os diversos pontos de virada que fizeram de um político comum (e até hostilizado dentro do próprio partido) e de um escritor desconhecido duas referências culturais do século XX.

Churchill e Orwell tiveram impactos duradouros na forma como vivemos e pensamos atualmente. Esses dois homens não fizeram o Ocidente próspero e liberal do pós-guerra – com seu prolongado boom econômico e sua constante expansão da igualdade de direitos a mulheres, negros, gays e minorias marginalizadas –, mas seus esforços ajudaram a estabelecer as condições políticas, físicas e intelectuais que tornaram tal mundo possível.

Por fim, não diria que se trata apenas de uma leitura agradável e informativa. Acho que ler as trajetórias de vida e de pensamento de George Orwell e Winston Churchill, considerando as circunstâncias atuais, é quase que uma exigência expressa no “palavrão” que usei no começo desse artigo, o tal do zeitgeist. Mais do que atualizar e contextualizar para as novas gerações os legados de dois grandes personagens, a obra de Ricks ajuda a fortalecer nosso debate atual sobre autoritarismo, liberdade de expressão, instrumentalização do poder e a importância das democracias para a contenção de líderes populistas ou ditadores de plantão.

Visões de mundo contrárias, rotuladas à direita ou à esquerda, não deveriam ser encaradas como adversárias quando o assunto é a preservação de valores universais como os direitos humanos. Churchill & Orwell – A luta pela liberdade vem nos relembrar disso. Se você gostou desse artigo e curte ler sobre a vida de personagens históricos, conheça outras resenhas de biografias aqui no blog!

Comentários

O blog Sentimento de Leitor disponibiliza o espaço do DISQUS para comentários e discussões dos temas apresentados no site, não se responsabilizando por opiniões, comentários e mensagens dos usuários sejam elas de qualquer natureza. Por favor respeite e siga nossas regras para participar. Compartilhe sua opinião de forma honesta, responsável e educada. Respeite a opinião dos demais. E, por favor, nos auxilie na moderação ao denunciar conteúdo ofensivo e que deveria ser removido por violar estas normas. Leia aqui os Termos de Uso e Responsabilidade .

A estrutura do site, bem como os textos, os gráficos, as imagens, as fotografias, os sons, os vídeos e as demais aplicações informáticas que os compõem são de propriedade do "Sentimento de Leitor" e são protegidas pela legislação brasileira e internacional referente à propriedade intelectual. Qualquer representação, reprodução, adaptação ou exploração parcial ou total dos conteúdos, marcas e serviços propostos pelo site, por qualquer meio que seja, sem autorização prévia, expressa, disponibilizada e escrita do site, é vedada, podendo-se recorrer às medidas cíveis e penais cabíveis. Leia aqui os Termos de Uso e Responsabilidade .

publicidade

quem escreve?

Mandy Ariani

Olá, eu me chamo Mandy! Sou apaixonada por livros, filmes, mangás e Jane Austen. Se você quer ficar por dentro do universo geek e literário, visite a gente!

colaboradores

publicidade

para te inspirar

Quando você abre o livro, é como num teatro: ali está a cortina. Você a arrasta para o lado, e a apresentação começa.

Cornelia FunkeCoração de Tinta, 2003.

os mais lidos do blog

editoras parceiras

2019

resenhas as mais recentes