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Resenhas

Cumbe

11 ago 19 3 mins. de leitura
por Ricardo Vergueiro

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Título Cumbe
Autor(a) Marcelo D’Salete
Tradutor(a) -
Editora Veneta
Páginas 176
Ano 2014
Em 'Cumbe', Marcelo D’Salete retrata de forma inovadora a luta dos negros no Brasil colonial contra a escravidão. O livro traz histórias em quadrinhos emocionantes, protagonizadas por escravizados, mostrando a resistência contra a violência das senzalas brasileiras.

Não é surpresa para ninguém que a visibilidade das graphic novels brasileiras têm crescido tanto aqui quanto no exterior. Por isso, gostaria de falar um pouco sobre uma dessas obras de sucesso. Há uns quatro meses ganhei de presente Cumbe, e posso dizer que a deixei injustamente plastificada por tempo demais na prateleira.

De autoria do paulistano Marcelo D’Salete, a HQ aborda a escravidão – essa enorme feriada aberta e ainda mal curada na história do país. O título remete à um quilombo na Paraíba, mas abrange significados muito mais amplos. A palavra “Cumbe”, de raiz banto, quer dizer também luz, fogo e força, o que expressa bem a vida de luta dos personagens retratados.

Tentei levar o foco para os personagens negros escravizados. Não foi algo simples. Mas sim, este é um dos elementos mais interessantes da narrativa. Além disso, é possível observar que eles atuam e sobrevivem em diferentes contextos da sociedade escravista brasileira. – Marcelo D’Salete

O projeto da HQ começou em 2004, quando Marcelo D’Salete mergulhou fundo em registros e documentos históricos para vir à tona com um enredo ao mesmo tempo criativo e crítico, tão verossímil quanto vigoroso. Lançado dez anos mais tarde, o trabalho faz das possíveis formas de resistência à escravidão um fio condutor para as tragédias pessoais dentro de um contexto histórico de mais de 300 anos.

© Material de divulgação passível de direitos autorais.

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A desigualdade extrema de hoje tem muito a ver com coisas que não foram superadas do período da escravidão” – Marcelo D’Salete

Laços que unem dramas como o do casal que planeja fugir mas que encontra no medo e na paixão obstáculos tão fortes quanto as correntes da senzala. Em outro episódio, uma escrava e dois negros iniciam um triângulo amoroso, levando a um conflito que promete dar vazão a todo ódio contido, terminando por derramar ainda mais sangue.

Apesar de não abrandar na violência, a HQ de D’Salete é permeada por uma narrativa muito poética. Os traços são muito intensos, procurando ressaltar toda tragédia por meio de linhas e contornos duros onde o colorido não entra, nem caberia entrar.

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A picada pra casa da cuca é essa mesmo, Soares? Depois de tudo, não podemos correr o risco de sermos pegos.

A escravidão é enfocada a partir do ponto de vista do escravizado, mas somente na intenção de lhe dar o protagonismo e a voz narrativa. Os episódios procuram fugir de qualquer estereótipo ou da romantização da figura do negro. E para dar profundidade aos diálogos, o quadrinista escreveu de forma a aproximar a fala de uma linguagem a mais verossímil possível, adotando expressões e palavras extraídas da cultura banto, de origem no Congo e Angola.

O Tata contou sobre o Calunga, o mar que não acaba. Nana, se a gente beber a nsanga e enfrentar o Calunga, podemos ficar juntos lá na outra terra.

Cumbe foi lançado nos EUA em 2017 com o título de Run for It. Ganhou a projeção que lhe faltava, e, no ano seguinte rendeu a Marcelo D’Salete o maior dos prêmios para um artista do gênero: o Eisner Award (homenagem ao lendário Will Eisner, criador da HQ The Spirit).

Com certeza quero conhecer outras obras do desenhista – igualmente bem cotadas -, como Encruzilhada (indicado ao HQMix, tido como o Oscar dos quadrinhos no Brasil) e Angola Janga (vencedor do HQMix e publicado na Alemanha, França, EUA, Polônia e Portugal).

Penso que é um momento especial em que, no mundo, e, principalmente em países aqui da América – Brasil e também Estados Unidos –, que essa discussão étnico-racial está em voga. – Marcelo D’Salete

Além de seu peso artístico e histórico, Cumbe é também um prato cheio para quem não dispensa histórias de ação com vários pontos de virada. Acima de tudo, traz uma mensagem poderosa sobre as questões raciais vividas na atualidade. Há muito para se refletir sobre as brechas que tristemente vem se abrindo, dentro e fora do Brasil, em relação aos direitos humanos. Então, convido você a se aventurar por esse Brasil Colonial, pelo ponto em que partimos enquanto nação. Só assim vamos decidir aonde queremos chegar.

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