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Máquinas Como Eu

28 out 19 5 mins. de leitura
por Ricardo Vergueiro

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Título Máquinas como Eu
Autor(a) Ian McEwan
Tradutor(a) Jorio Dauster
Editora Companhia das Letras
Páginas 328
Ano 2019
Londres, 1982. A Grã-Bretanha perdeu a Guerra das Malvinas. A primeira-ministra Margareth Thatcher tem seu poder desestabilizado ao ser desafiada pelo esquerdista Tony Benn. O matemático Alan Turing vive sua homossexualidade plenamente e suas contribuições para o avanço da tecnologia permitiram não só a disseminação da internet e dos smartphones como a criação dos primeiros humanos sintéticos, com aparência e inteligência altamente fidedignas. É nesse mundo que Charlie, Miranda e Adão — o robô que divide a vida com o casal — devem encontrar saída para seus sonhos e ambições, seus dramas morais e amorosos.

E se um dia as máquinas forem capazes de manifestar emoções e julgamentos morais? Sim, esse é um tema já revisitado “zilhões” de vezes pela literatura de ficção científica e a cultura pop em geral, de clássicos como Eu, Robô (Isaac Asimov) a filmes mais recentes como Ex Machina (Alex Garland). O novo romance de Ian McEwan, Máquinas Como Eu: e Gente Como Vocês, entra com certeza para a lista de preciosidades do gênero. Na verdade, o livro tem potencial – acredito – para se tornar um clássico a ser lido e debatido nas próximas décadas.

Em Máquinas como Eu, o narrador-protagonista traz à tona questões ético-filosóficas envolvendo as Inteligências Artificiais enquanto relata seus dramas pessoais, suas tentativas inglórias de reprogramar escolhas e caminhos. A narrativa é clara e de tom intimista. O resultado? uma história poderosa que, antes de rechear parágrafos com jargões de robótica e “palavrões” científicos, se preocupa primeiro em conquistar a adesão emocional do leitor.

Mas como os seres humanos artificiais representavam um lugar-comum muito antes de se tornarem realidade, quando isso aconteceu eles foram para alguns um desapontamento.

Um ponto bastante positivo da obra é a criatividade com que McEwan resolveu ambientar sua história. Ao invés de um futuro desconhecido, ele descarregou no passado todo o avanço tecnocientífico que deu vida à Adão. Portanto, estamos em Londres no ano de 1982. Mas, a Londres da narrativa é a metrópole de um universo paralelo.

No enredo, Margaret Thatcher é a primeira-ministra e está em vias de despachar soldados britânicos para retomar as Falklands, ilhas do Atlântico Sul invadidas pelos argentinos. Exatamente como na realidade, quando os ingleses venceram, a economia deles cresceu e a primeira-ministra foi reeleita, em 1983. Na imaginação do autor, porém, os ingleses perdem a Guerra das Malvinas e a economia, que já não ia bem, afunda levando junto a carreira política de Thatcher.

Bem, é nesse panorama que Charlie Friend gasta sua herança na compra de Adão, um androide fabricado por Alan Turing, criador do teste que é capaz de identificar nas máquinas os limiares de uma consciência. Turing, que na vida real morreu em 1954, está vivo e passa bem na história de McEwan (assim como John Lennon, que volta a se reunir como os Beatles para uma turnê e gravação de um novo álbum “decepcionante”, segundo a crítica).

Doze exemplares dessa primeira edição se chamavam Adão, treze se chamavam Eva. Piegas, todos concordavam, mas comercialmente eficaz. Como as noções de raça biológica tinham sido cientificamente desacreditadas, os vinte e cinco foram projetados de modo a abarcar um largo espectro étnico.

Com o modelo Eva já esgotado nas lojas, Charlie teve que se contentar com Adão. Aparentemente só outro insucesso na lista de um sujeito comum, sem nenhum projeto de vida definido. Charlie fez Direito mas formou-se em Antropologia, é fascinado por eletrônica mas “ganha” a vida apostando na bolsa e faturando pouco. Sua melhor chance é Miranda, a vizinha do quarto de cima; a princípio amiga, depois amante. Charlie se apaixona e, por isso, a convida para ajudá-lo na configuração de personalidade de Adão, apostando nisso um meio de alçar o relacionamento a um patamar muito melhor.

Adão não era meu rival na área romântica. No entanto, ele a fascinava, conquanto fisicamente lhe causasse repugnância.

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Enquanto a trama se desenrola, McEwan provoca. Ele põe a artificialidade dos relacionamentos e a visão de mundo utilitarista de Charlie em contraponto com o encantamento que o androide Adão tem para com o mundo, voltando seus olhos de criança às perguntas fundamentais da vida, aquelas das quais nos afastamos (ou querem nos afastar) com frequência. Nesse cenário, é interessante ver Adão se inflamar de humanidade ao se interessar por filosofia, artes, ciências e conteúdos diversos.

A obra aponta alguns problemas e conflitos morais suscitados com o nascimento de um ser humano artificial. Adão acredita na justiça e verdade puras, mas será que toda verdade deve ser desnudada? A qualquer preço? Aí está a grande angústia que o livro nos traz, aquela que o autor enriquece com um texto repleto de metáforas de rara beleza, sendo algumas shakespearianas.

Apesar da nítida distinção entre as coisas vivas e inanimadas, a verdade é que ambos estávamos sujeitos às mesmas leis físicas. Talvez a biologia não me concedesse nenhum status especial, e pouco importava dizer que a figura de pé à minha frente não era de todo viva.

No caso do protagonista, o início desse curto-circuito de relações – entre dois humanos “naturais” e um “artificial” – se dá na formação de um triângulo amoroso acidental, no qual Charlie termina por experimentar uma mistura inusitada (talvez inédita para um sapiens) de sentimentos.

A partir daí, os dilemas se avolumam até um dos pontos altos do romance, quando Charlie e Adão viajam para conhecer o pai de Miranda. Ela, por sua vez, esconde um segredo do passado, um débito com a Justiça, com o qual os dois também se veem envolvidos, cada qual a sua maneira (e o androide terá ideias muito claras e sólidas do que seja a Justiça).

A partir do momento em que um robô escrever um romance muito bom, ou mesmo um ruim, acho que devemos admitir que ele é consciente. Embora eu não ache que isso vá ocorrer nos próximos 15 anos ou enquanto eu estiver vivo, é concebível.” – Ian McEwan.

Máquinas como Eu é uma obra-prima e valerá cada minuto de leitura, mesmo se a ficção científica for o último dos gêneros para você! Afinal, não se trata apenas de robôs. O livro fala sobre nossa humanidade e a procura de um sentido para a vida – qualquer sentido.

Mas chegará mesmo esse dia? O dia em que o ser humano se sentirá um “criador Todo-Poderoso”, tendo à frente uma criatura que lhe faça as perguntas que ele mesmo não soube responder, como “para que estamos aqui”? E se chegar esse dia, o que faria esse “criador Todo-Poderoso” depois de admitida sua inferioridade frente à criatura? O paradoxo soaria vergonhoso para muitos. E humano, demasiado humano.

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