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Neuromancer

10 jul 19 6 mins. de leitura
por Ricardo Vergueiro

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Título Neuromancer
Autor(a) William Gibson
Tradutor(a) Fábio Fernandes
Editora Aleph
Páginas 320
Ano 2016
Considerada a obra precursora do movimento cyberpunk e um clássico da ficção científica moderna, Neuromancer conta a história de Case, um cowboy do ciberespaço e hacker da matrix. Como punição por tentar enganar os patrões, seu sistema nervoso foi contaminado por uma toxina que o impede de entrar no mundo virtual. Agora, ele vaga pelos subúrbios de Tóquio, cometendo pequenos crimes para sobreviver, e acaba se envolvendo em uma jornada que mudará para sempre o mundo e a percepção da realidade.

Se você chegou até aqui e começou a ler este artigo, então não apenas sabe o que é o ciberespaço como também, de certa forma, já vive nele. Mas, há 35 anos, imaginar interações humanas dentro de espaços virtuais, para além de todo o entusiasmo, era um exercício cercado de interrogações. De todo o imaginário construído do final do século XX para cá, é possível achar um ponto primordial pulsante dentro do vastíssimo universo de referências sobre o tema. Eu chamo essa singularidade de Neuromancer.

O ano era 1984 (não por acaso, data de George Orwell e seu Big Brother) e William Gibson lança o primeiro romance de uma trilogia que mudaria as feições da ficção científica contemporânea. Nascia o movimento cyberpunk, subgênero que combina tecnologias de ponta com mundos decadentes e vidas em contextos degradantes. Nesse contexto, a partir de Neuromancer (e outras obras de autores da mesma “escola”), a palavra ciberespaço ganhou o poder simbólico que você e eu conhecemos hoje.

Ciberespaço. Uma alucinação consensual vivenciada diariamente por bilhões de operadores autorizados, em todas as nações, por crianças que estão aprendendo conceitos matemáticos… uma representação gráfica de dados abstraídos dos bancos de todos os computadores do sistema humano.

O livro conta a história de Case, um cowboy, como são chamados os hackers no Sprawl (megacidade nos EUA formada com a unificação das regiões entre Boston e Atlanta, incluindo Washington e Nova York). Anti-herói clássico, Case é um sucesso invadindo sistemas e roubando dados, mas cai em desgraça quando tenta tapear seus próprios patrões. Eles, como vingança, danificam o sistema neural de Case injetando uma micotoxina que o impede de se conectar. Dessa forma, o agora ex-cowboy perambula como marginal pelas ruas de Chiba City (Tóquio) atrás de drogas, dinheiro e algum sentido para a vida.

© Material de divulgação passível de direitos autorais.

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Com a cabeça já bem enterrada na lama, Case conhece Molly, uma assassina profissional versada em artes marciais e turbinada de implantes (entre eles, lâminas que se projetam sob as unhas das mãos). Molly persegue o hacker aposentado para obrigá-lo a realizar uma missão, a mando do chefe das Forças Armadas, Armitage. O cowboy fracassado deve invadir Wintermute, a mais poderosa máquina do Sprawl. Em troca, porém, Armitage promete livrá-lo das micotoxinas. E assim Case volta à ativa, plugando-se novamente ao ciberespaço, tendo basicamente um deck (aparelho de acesso), um punhado de eletrodos e uma missão quase impossível.

Case tinha vinte e quatro anos. Aos vinte e dois era um cowboy, cowboy fora-da-lei, um dos melhores no Sprawl. Ele havia sido treinado pelos melhores, McCoy Pauley e Bobby Quine, lendas do negócio.

Os personagens de Neuromancer são complexos e interessantes. Vão entrando bem aos poucos dentro da trama que, bem devagar, vai revelando o “passado negro” de cada um. Com certeza, eles estão muito longe da simplicidade. Tanto que leva tempo para entender suas motivações verdadeiras, já que todos tem muito a esconder nos dois mundos, o real e o virtual.

Mas o que exige mais paciência por parte do leitor é o vocabulário tecnocientífico. A obra é cheia de neologismos e passagens um tanto confusas para quem faz questão de entender, detalhe por detalhe, o sentido de cada palavrinha. Quem não for adepto da prosa pós-moderna (intertextos, citações da cultura pop, cenas fragmentadas) talvez se irrite bonito com Case e Cia.

Ele fechou os olhos. Encontrou a face em relevo do botão de Power. E, na escuridão iluminada de sangue atrás de seus olhos, fosfenos prateados queimando na borda do espaço, imagens hipnagógicas se alternando rapidamente como filmes compilados a partir de frames aleatórios. Símbolos, figuras, rostos, uma mandala fragmentada de informação visual.

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Os mais íntimos desse formato e estrutura narrativa, porém, vão curtir o jeito como o autor mergulha seus leitores num universo novo e bizarro, um lugar onde tudo o que podemos saber é um grandessíssimo nada. Aceitar o desconforto do desconhecido vai fazer a leitura fluir e, mais importante, prender e impressionar.

Quem se liga em cultura pop já está roxo de saber, mas não custa lembrar: a saga Matrix, das irmãs Wachowski, foi inspirada nesse e nos outros dois livros da chamada trilogia do Sprawl (depois de Neuromancer, vieram Count Zero e Mona Lisa Overdrive, obras que trataremos em outro momento). No lugar de Neo, temos o cowboy Case. Ao invés de Trinity, Molly. O Armitage do livro vira o Morpheus (mais heroico) do cinema. Não obstante, a palavra “matrix” nasceu com Neuromancer e só muito depois viria a batizar a distopia digital das Wachowski.

– Só que às vezes eu machuco as pessoas, Case. Acho que é o meu hardware. – Ela vestia jeans de couro preto justíssimos e uma jaqueta preta grande feita de algum material fosco que parecia absorver a luz.

Voltando ao livro, outra característica curiosa: a narração é toda feita na terceira pessoa, mas, estranhamente, temos a sensação de estarmos dentro da cabeça de Case. Tudo é contado da perspectiva de uma mente “hackeada” e “hackeadora”. Talvez por isso as descrições dos ambientes sejam mais centradas nas impressões dentro da matrix (ou durante suas viagens com drogas) do que nos cenários do mundo real, embora estes também estejam delimitados e sejam impactantes (um quê de Blade Runner, ou se preferirem, de Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas?, clássico de Philip K. Dick publicado em 1968).

Além disso, a história também é recheada de linguagem urbana, uma enxurrada de palavrões, drogas, violência e sexo, no melhor estilo incensurável da estética cyberpunk. E, para arrematar qualquer leitor, a edição especial de 2016 conta com uma ilustração de capa digna de um viral na internet. O artista espanhol Josan Gonzalez capricha na fluorescência das cores (evocando luz neon e toda a ambientação hi-tech da trama) e num traçado sombrio e marginal que lembra a séria de animação Aeon Flux, de 1991.

Como toda obra-prima de sci-fi, Neuromancer andou muito à frente da ciência de seu tempo, antecipando muitos fenômenos que vivemos hoje. Ainda assim, como se trata de literatura e não profecia, a presença de “anacronismos” é inevitável. Nas palavras do próprio autor – que assina o prefácio da edição usada neste artigo -, a passagem do tempo acabou expondo certos “pecados inevitáveis” dentro da obra. Ele cita, por exemplo, a “completa ausência de pequenos e ubíquos telefones portáteis”. Sim, celulares ficaram de fora do Sprawl (no filme Matrix, quem não se lembra das simpáticas cabines telefônicas de onde Neo e sua turma escapuliam do mundo virtual?).

O céu sobre o porto tinha a cor de uma televisão sintonizada num canal fora do ar.

Mas essa é uma poeira estelar de nada numa constelação de acertos que renderam à Neuromancer a distinção de brilhar entre os 100 maiores romances do século, segundo a revista TIME. Com ele, William Gibson faturou a bendita “tríplice coroa da ficção científica” (primeiro escritor do gênero a ganhar os prêmios Philip K. Dick, o Nebula e o Hugo Awards).

Enfim, encontramos também na obra de Gibson a exibição nua e crua de muitos dos nossos temores com relação às tecnologias de um futuro próximo. E isso vai muito além de antever nossa fixação com mundos virtuais e novos gadgets que envelhecem da noite para o dia para serem trocados a cada estação. Muito mais que literatura cyberpunk, Neuromancer é hoje um paradigma incômodo, banhado de cultura pop e, quem sabe, apenas disfarçado de ficção científica.

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