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Resenhas

Nós

15 maio 19 5 mins. de leitura
por Ricardo Vergueiro

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Título Nós
Autor(a) Ievguêni Zamiátin
Tradutor(a) Gabriela Soares
Editora Aleph
Páginas 344
Ano 2017
D-503 é o engenheiro feliz e orgulhoso que vive sob as leis do Estado Único, uma sociedade matematicamente construída para ser perfeita. O cidadão-número tem a missão de projetar e construir a INTEGRAL, uma espaçonave que levará sua mensagem de felicidade e ordem a outros mundos, ainda submetidos à selvageria de uma vida imprecisa baseada em conceitos como “diferença” e “liberdade”. Tudo muda quando o construtor-chefe da INTEGRAL conhece E-330, uma mulher misteriosa e subversiva que carrega consigo a doença da imaginação. D-503 foi contaminado. Agora terá que duvidar de sua fé no poder da lógica e da perfeição, representadas na figura do todo-poderoso governante do Estado Único, o Benfeitor.

Ele, um número.  D-503 é o personagem de Nós, de Iêvgueni Zamiátin, a clássica distopia russa que serviu de inspiração para “gigantes” como Admirável Mundo Novo, 1984 e Fahrenheit 451. Sem contar, os best-sellers arrebatadores da sci-fi atual, como Divergente e Jogos Vorazes.

Eu, D-503, construtor da INTEGRAL…

O engenheiro de uma civilização do século 30 constrói uma espaçonave – a INTEGRAL – com a missão de levar a outros mundos (“selvagens”, inferiores) a experiência feliz, organizada e maquinal do Estado Único comandado pelo Benfeitor (este corresponderia, fazendo aqui um paralelo, ao Big Brother de Orwell). Nesse cenário, tanto você quanto eu somos o alvo da missão de D-503 e seu Estado Único. O personagem se dirige a mim como o “leitor desconhecido”. E ao abrirmos o livro, de fato, somos imediatamente contatados pela mensagem dessa sociedade “avançada” onde os indivíduos não tem nomes, mas sim NÚMEROS!

   […]

— Vejo que quer mostrar-se original, mas não seria possível…

— É claro — atalhou E-330 — que ser original significa ser diferente dos outros. Por consequência, ser original é o mesmo que violar a uniformidade. E aquilo que na linguagem idiota dos antigos passava por ser banal significa hoje para nós o cumprimento dum dever.

[…]

D-503, o cidadão-dígito que narra a história, e nos conta como é ser uma “célula” dentro do corpo grandioso do Estado Único, que define e programa até mesmo os horários em que o sexo é permitido! Porém, as certezas do protagonista são abaladas com o aparecimento de uma mulher misteriosa, que subverte todas as regras de uma vida calculada e perfeita. D-503 está prestes a ser contaminado. A doença? Os cientistas do Estado Único a chamam de imaginação!

Os personagens principais da trama, D-530 e E-330, vivem por ideais radicalmente opostos. Enquanto D-530 é um servidor fiel do Benfeitor, E-330 articula secretamente um atentado contra o governo. Ela tenta convencê-lo a apoiar um grupo rebelde na sabotagem da espaçonave INTEGRAL, o maior feito do Estado Único e, claro, de seu engenheiro-projetista… o próprio D-530. Ele, por sua vez, imagina-se doente ao sentir uma atração irresistível por E-330. Justo ela, uma cidadã desprezível, um perigo a ser evitado e, mais que isso, denunciado. Contudo, D-530 é incapaz disso, o que parece confirmar a sua doença.

© Material de divulgação passível de direitos autorais.

Resenha de Nós de Ievguêni Zamiátin

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Tal como seu personagem, o autor de “Nós” foi engenheiro por formação. Talvez isso explique o excesso de metáforas e figuras de linguagem baseadas na Aritmética e na Geometria. Isso dificultou um pouco o entendimento de algumas passagens para mim, exigindo um leitura mais demorada. Parecem que foram feitas sob medida pra afugentar quem é, assim como eu, um “zero à esquerda” nas Ciências Exatas.

 […] somos um triângulo; talvez não seja um triângulo isósceles, mas é um triângulo.

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Para mim, isso tornou a leitura um pouco pesada, comprometendo o ritmo. Outra questão é a falta de ganchos mais claros entre os capítulos, que às vezes chegam a parecer episódios isolados, sem ligação com o desenvolvimento da trama profunda. Em outras palavras, a história perde a coesão em alguns pontos.

Em compensação, a obra é impecável na caracterização dos personagens e na construção de seus diálogos, carregados de tensão e duplos sentidos (coerentes com o contexto social de vigilância permanente do Estado Único). Por fim, o desfecho do romance é tão impactante (e perturbador) quanto as páginas finais de 1984 ou Admirável Mundo Novo.

Fui eu mesmo, D-503, que escrevi estas centenas de páginas? Alguma vez passei por isto ou terei somente imaginado que passei por isto?

Depois de longos anos afastada do mercado brasileiro, a obra-prima de Iêvgueni Zamiátin voltou em 2017, num projeto luxuoso da Editora Aleph com direito à tradução direta do russo. A novíssima edição conta com dois destaques de peso: uma resenha de 1946 assinada por ninguém menos que George Orwell; e uma carta escrita por Zamiátin a Josef Stalin, em que o autor de “Nós” pede permissão ao ditador para deixar a União Soviética, onde vinha sendo constantemente censurado e perseguido. Em um dos trechos mais comoventes, o escritor afirma não crer “que mereça uma punição tão grave quanto a morte LITERÁRIA”.

A primeira coisa que qualquer um notaria a respeito de NÓS é o fato de que Admirável Mundo Novo deve, em parte, originar-se dele. A atmosfera dos dois livros é semelhante. E, em linhas gerais, é o mesmo tipo de sociedade que está sendo descrito, embora o livro de Huxley demonstre menos consciência política. -George Orwell

Nós garante uma experiência valiosa para quem vencer os desafios citados acima. Basicamente dois, para resumir: texto menos fluido e uso frequente de termos matemáticos. Mas o esforço, eu repito, vale a pena! A história é original e desperta muitas reflexões. Também gostei muito de identificar no livro algumas referências retrabalhadas mais tarde por George Orwell e Aldous Huxley em suas respectivas obras-primas.

Até o folhear da última página, a leitora e o leitor serão convidados a uma reflexão sobre sentimentos universais como amor, aceitação e senso de justiça, tendo como pano de fundo uma sociedade em que as paredes dos quartos são de vidro, onde a privacidade não tem valor algum, onde as diferenças e divergências devem ser combatidas e… eliminadas.

Isso não te lembra alguma coisa? Pois é só rolar um pouco mais a tela da rede social em que estiver agora. Repare nas discussões, as fake news, os haters… Você vai descobrir que “Nós”, publicado em 1924, tem muito a nos dizer ainda hoje, e talvez ao longo de todo o século XXI. E, se você gosta de distopias, confira 10 distopias que você não deve deixar de ler!

[…] vivemos cada instante à vista de todos, sempre banhados em luz e cercados de paredes de vidro que parecem feitas de ar refulgente. Nada temos a esconder uns dos outros. Esta forma de viver, assim às claras, facilita a difícil e nobre missão dos guardas. Se assim não fosse, sabe-se lá o que podia acontecer.

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