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O Cérebro No Mundo Digital: Os Desafios da Leitura na Nossa Era

31 jul 19 4 mins. de leitura
por Ricardo Vergueiro

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Título O Cérebro No Mundo Digital: Os Desafios da Leitura na Nossa Era
Autor(a) Maryanne Wolf
Tradutor(a) Mayumi Ilari e Rodolfo Ilari
Editora Contexto
Páginas 256
Ano 2019
O que acontece no nosso cérebro quando lemos? Como a multiplicação de telas nas nossas vidas afeta a forma como lemos? E quais os perigos – e oportunidades – da leitura digital? Essas questões são analisadas pela neurocientista norte-americana Maryanne Wolf. Com base em diversas pesquisas, a autora mostra a importância da leitura profunda na história da humanidade e como ela está ameaçada.

Vamos falar sobre O Cérebro No Mundo Digital: Os Desafios da Leitura na Nossa Era? Ler é uma profunda experiência sentimental e cognitiva. E um prazer, se você é daqueles que, como eu, não consegue imaginar um mundo onde os livros não existam. Por isso, achei engraçado quando me dei conta de que estava lendo uma obra que vinha me lembrar algo tão desconcertante: o ato de ler não é uma aptidão natural do ser humano. Ao contrário do “software” da linguagem em geral, pré-instalado nos genes, a leitura é outro dos grandes trunfos exclusivos do homo sapiens.

O exercício da leitura foi responsável – e fundamental – na alteração da estrutura cerebral de nossa espécie. É esse o ponto de partida do livro O cérebro no mundo digital: os desafios da leitura na nossa era, da neurocientista cognitiva e pesquisadora Maryanne Wolf, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos.

A qualidade de nossa leitura não é somente um índice da qualidade de nosso pensamento, é o melhor meio que conhecemos para abrir novos caminhos na evolução cerebral de nossa espécie. Há muito em jogo no desenvolvimento do cérebro leitor e nas rápidas mudanças que caracterizam atualmente suas sucessivas evoluções.

Para início de conversa, a autora é feliz no uso de um artifício bem criativo para facilitar – justo quem? – a nossa leitura. Pode crer que deu certo. Ela organiza o livro em seções cujos textos tem o formato de cartas, mensagens escritas com capricho para o leitor. Cartas, sim. Um formato antiquado escolhido não por acaso, pois, numa linguagem coloquial e tom reflexivo, a autora quer chamar atenção para as problemáticas que envolvem a leitura nesses tempos hiperconectados que vivemos. Especificamente o impacto que a leitura feita em telas – dos desktops aos celulares – tem sobre nossa concentração e habilidade de compreender e internalizar uma mensagem.

Os suportes digitais, segundo ela, afetam a capacidade de concentração do leitor devido a três fatores, essencialmente: a emissão de luz dos dispositivos, o hiperestímulo sinestésico das interfaces e (sempre que online) a oferta de outros conteúdos brigando pela atenção do leitor.

Wolf apresenta dados obtidos a partir de suas pesquisas, complementando sua fundamentação com o suporte de vasta bibliografia. Por exemplo, quando somadas redes sociais, mensagens eletrônicas e outras fontes escritas, um norte-americano médio lê algo próximo a um romance curto, todos os dias!

Mas nossa atenção pode ser facilmente distraída. Quando você está em um ônibus ou no metrô, pode mergulhar numa leitura profunda, mas é menos fácil de fazê-lo.

Ainda sobre a qualidade da leitura, ela aplicou em si mesma os testes que havia elaborado, e constatou perda significativa em sua experiência pessoal de imersão quando aquilo que lia era lido em meio digital. Ela faz ainda uma análise sobre e-readers como o Kindle, que ofereceriam melhor condição de leitura do que um smartphone, mas inferior quando comparada ao livro físico (o apelo estético e sinestésico do papel também teria relevância na absorção dos conteúdos, ou para aquilo que os leitores mais apaixonados chamam de “mergulhar na história”).

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O fato da autora evitar os tecnicismos e a linguagem carregada (e às vezes pedante) dos textos acadêmicos é, sem dúvida, um ponto super favorável. Mas manter equilíbrio nessa corda bamba de mais de 200 páginas parece não ter sido moleza para uma neurocientista como Wolf, que, no esforço correto de não escorregar para o academicismo, terminou didática demais um muitas das passagens. Um detalhe mínimo, claro, frente à gigantesca tarefa e contribuição para o entendimento do tema.

Propus a mim mesma o objetivo de compreender como os seres humanos adquirem as palavras escritas e como usam a língua escrita em proveito de seu próprio desenvolvimento intelectual e do desenvolvimento intelectual das gerações futuras.

À primeira vista, talvez alguém pudesse imaginar outra dessas obras tecnofóbicas procurando botar tudo na conta dos gadgets e da internet, da depressão infantil à eleição de Donald Trump. Porém, Maryanne Wolf está longe disso. Ela reconhece (e celebra) os ganhos obtidos com a tecnologia, destacando, por exemplo, a utilização das telas na alfabetização de crianças disléxicas.

  Muitas pessoas estão compreendendo que não podemos voltar atrás no progresso tecnológico. Então eu acredito que precisamos educar nossas crianças para que elas aprendam a ler profundamente em papel, mas que sejam ensinadas a ler conscientemente em telas com o máximo de propósito. Creio que possamos fazer isso.

Para além dos dados científicos preciosos sobre a relação entre palavras escritas e sinapses cerebrais, o livro é também um convite para refletirmos sobre a qualidade da nossa leitura nos dias atuais. O quanto nossos suportes e a velocidade de fruição dos textos pode afetar nossa interpretação da realidade. Isso, ampliado para toda uma sociedade, pode comprometer o pensamento crítico e empático a longo prazo, alerta Wolf.

A atenção inicia o resto do que acontecerá no circuito leitor. Se você está parcialmente atento, o circuito não funciona de modo ideal. […] Se você lê com atenção parcial, não será capaz de inferir o que é verdade e fica mais vulnerável às informações falsas, menos capaz de ler crítica e analiticamente.

O cérebro no mundo digital: os desafios da leitura na nossa era está com certeza entre aquelas obras que merecem toda a atenção possível, seja ela na tela ou no papel. Vale muito a pena! E se você curte o tema, ou se vem acompanhando com interesse o debate atual sobre livro físico versus digital, leia o artigo Kindle: Vale a pena comprar um?

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