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O Palhaço e o Psicanalista: Como Escutar os Outros Pode Transformar Vidas

26 set 19 4 mins. de leitura
por Ricardo Vergueiro

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Título O Palhaço e o Psicanalista: Como Escutar os Outros Pode Transformar Vidas
Autor(a) Christian Dunker e Cláudio Thebas
Tradutor(a) -
Editora Planeta
Páginas 256
Ano 2019
Se de médico e louco todo mundo tem um pouco, de psicanalista e palhaço todo mundo tem um pedaço. Christian Dunker e Cláudio Thebas abordam neste livro, com bom humor e profundidade, um tema comum para ambos os ofícios: como escutar os outros? Como escutar a si mesmo? E como a escuta pode transformar pessoas? Mesclando experiências, testemunhos, casos e reflexões filosóficas, os autores compartilham o que aprenderam sobre A ARTE DA ESCUTA, um tema tão urgente no mundo atual, onde ninguém mais se escuta.

O que há em comum entre um palhaço e um psicanalista? O inusitado deste encontro foi o que me chamou a atenção para esse lançamento da Editora Planeta. O Palhaço e o Psicanalista, de Christian Dunker e Cláudio Thebas, usa uma narrativa bem humorada para expor uma problemática comum em nossos tempos: a ausência de uma escuta interessada, generosa e, acima de tudo, empática.

Como ouvir o outro? E como escutar, em nós mesmos, aquilo que nos acostumamos a chamar de “voz interior”? Descobrir isso, segundo os autores, é desencadear um imenso poder transformador em nossas vidas.

Escutar demanda trabalho e dedicação. É uma forma de cultivo, quase uma arte. Mas uma arte que não deixa obras visíveis e monumentos, mas tão somente efeitos e palavras […] – Christian Dunker.

Dunker é o psicanalista, escritor e professor da Universidade de São Paulo (USP). Cláudio Thebas, palhaço e educador, é coordenador de grupos que lidam com essa matéria-prima chamada “o outro” (são eles: o Forças Amadas, um trabalho de apoio emocional para pessoas em condições de vulnerabilidade; e o LEC, Laboratório de Escuta e Convivência).

Na intenção de criar o que seria uma conversa descontraída de bar – embora certo academicismo se sobressaia na escrita -, eles trocam experiências e compartilham histórias de vida, analisando as interações humanas do ponto de vista de suas respectivas profissões.

O vazio da escuta é um espaço para que o outro nos habite. Dúvidas e hesitações são espaços de vazio e silêncio. Certezas soterram esses espaços. – Cláudio Thebas

O livro nos convida a uma espécie de silêncio estratégico. Mais que um convite, porém, o leitor é provocado a refletir sobre as atitudes necessárias para a melhoria das relações interpessoais. Segundo os autores, a falta de um interesse genuíno pelo outro dentro das trocas comunicacionais (redes sociais incluídas) é uma das explicações para as carências emocionais nas sociedades contemporâneas. Esse “vazio”, em grande medida, seria fruto do individualismo e do enfraquecimento de vínculos familiares, sociais e educacionais.

No livro, o diálogo entre Dunker e Thebas é bem referenciado por notas e citações. Enquanto decisão editorial, se por um lado aprofunda o nível do debate, por outro enfraquece um pouco a proposta inicial, ou seja, de mantê-lo como uma troca de experiências e exemplos práticos. Para começar, o próprio texto poderia ter sido estruturado como tópicos de uma conversa. Ao invés disso, temos dois profissionais que se revezam na escrita de capítulos nos quais a tônica quase sempre oscila entre a crônica e o ensaio.

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O psicanalista se interessa pelas propriedades que todos nós temos universalmente e, também, pelas particularidade que adquirimos ao participarmos de grupos e coletivos, mas, além disso, ele quer encontrar o que torna aquela pessoa… aquela pessoa. O que a torna diferente de todas as outras, nos termos dela mesma. Ele quer, portanto, encontrar o palhaço daquela pessoa.

Nos dois primeiros capítulos – O Começo: Versão do Palhaço e O Começo: Versão do Psicanalista -, ambos expressam suas razões particulares para o encontro. A relação amadureceu a partir de uma proposta do palhaço para o psicanalista, em que este foi convidado a participar do projeto Escola dos Pais (coordenado por Thebas visando o compartilhamento de experiências entre pais e educadores).

Dunker topou e, mais que isso, retribuiu na mesma moeda chamando Thebas para ministrar com ele um curso na Casa do Saber. Dessas trocas, nasceram diálogos muito profundos e filosóficos sobre o valor da escuta para o ser humano, e como a ausência dele vem esgarçando nosso tecido social.

O projeto de um livro, portanto, veio quase como um impulso, um esforço natural da dupla para expandir suas reflexões e levá-las a um público maior. Um trunfo interessante da obra é apresentar as características presentes nos “escutadores” mais ou menos empáticos, características estas presentes em todos nós – em maior ou menor quantidade. Aliás, são as passagens em que o olhar divertido do palhaço faz toda a diferença, “arejando” os textos mais eruditos e acadêmicos de Dunker.

Entre os vários tópicos tratados, vale destacar os seguintes: “A escuta em ambiente digital” (meu favorito); “Escutando chatos, fascistas e outros fanáticos”; “A potência do silêncio”; “Simpatia não é empatia” ; “Sete regras para ser melhor escutado” ; “Como construir para si um órgão de escuta” e “Os quatro agás da escuta”.

Escutar com qualidade é algo que se aprende. Depende de alguma técnica e exercício, mas também, e principalmente, de abertura e experimentação.

Em “A escuta em ambiente digital”, por exemplo, o psicanalista nos adverte para os cuidados que devemos ter com as armadilhas da instantaneidade às quais nossas vidas virtuais estão sujeitas. Cada vez mais rápidas e capilarizadas (a convergência entre os apps permite a publicação simultânea em mais de uma plataforma de uma só vez), nossas ferramentais de comunicação alimentam nossa impulsividade, diminuindo cada vez mais o espaço de reflexão sobre os conteúdos que consumimos e as mensagens que queremos transmitir.

A arte da escuta é o que mais aproxima o palhaço do psicanalista, mas haveria alguma outra semelhança entre essas figuras? Ao concluir a leitura, talvez você descubra, como eu, outros pontos em comum bem interessantes. Por exemplo, ambos também conhecem bem os truques de que a mente é capaz na criação de seus espetáculos de autoengano. A diferença? Bem, o psicanalista desmonta o truque apontando o espelho, enquanto o palhaço desmonta o próprio espelho apontando o riso. No final das contas, ambos levam bem a sério a comédia humana. Se você gostou desse artigo, não deixe de conferir outros lançamentos aqui no blog!

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