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Querem nos Calar: Poemas para Serem Lidos em Voz Alta

20 ago 19 4 mins. de leitura
por Ricardo Vergueiro

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Título Querem nos Calar: Poemas para Serem Lidos em Voz Alta
Autor(a) Mel Duarte, org.
Tradutor(a) -
Editora Planeta
Páginas 224
Ano 2019
Querem nos calar: poemas para serem lidos em voz alta é uma antologia que reúne poesias de 15 mulheres poetas slammers de todas as regiões do Brasil. Com prefácio de Conceição Evaristo, o livro conta também com ilustrações de Lela Brandão e é organizado pela escritora Mel Duarte, autora de uma das performances de maior destaque da Flip 2016 e integrante do Slam das Minas - SP.

Já fazia um tempo que eu não lia poesia contemporânea brasileira, e fiquei impressionado com a força e a beleza crua dos versos de Querem nos calar: poemas para serem lidos em voz alta. Considerada a primeira antologia de destaque de slammers brasileiras, o livro é um manifesto poético-político, nas palavras da organizadora da obra, a escritora Mel Duarte.

Foram selecionadas quinze mulheres autoras de poetry slam de cada região do Brasil. A “batalha de poesia”, como é conhecida, nasceu em Chicago (EUA) em 1980, chegando em São Paulo no ano de 2008 pelas mãos (ou seria pela voz?) de Roberta Estrela D’Alva – presença de destaque na antologia.

Às vezes acontece um negócio esquisito: quando eu quero falar eu grito, quando quero gritar eu falo. O resultado? Calo. – Roberta Estrela D’Alva

A ideia do projeto é valorizar e ampliar o alcance da poesia falada, mas partindo do olhar feminino. O trabalho chama a atenção para a violência simbólica (e frequentemente literal também) com que mulheres héteros, homo, bi ou trans são silenciadas. Apesar da profundidade dos temas, a obra se “comunica” como um panfleto: ágil, direto, engajado.

Quando nós, mulheres, escrevemos, partilhamos nossas perspectivas de existência, e saudamos as que vieram antes, buscando incentivar as que aqui estão e visando novas eras para as que virão depois.” – Mel Duarte, org.

A leitura das 224 páginas é rápida e bem agradável. Eu li durante uma viagem de trem de duas horas, entre São Paulo e Mogi das Cruzes, onde moro. E o cenário para a leitura não poderia ser mais apropriado: da janela do vagão, muros grafitados, pipas entre cabos da rede elétrica, traços da periferia que corriam dos olhos…

“[…] não vamos aceitar mais mortes, ninguém cala, não tá dando pra dá o outro lado do rosto pra bala” – Bor Blue

Ao ritmo dos trilhos, os versos foram martelando denúncias e desfiando experiências de vida; cenários em que passeiam a desigualdade social, o racismo, o machismo e outras agressões à diversidade.

“[…] não / eu não falo pelas mulheres / chega de sermos interrompidas / não / eu não falo pelas mulheres / quero ouvi-las” – Bell Puã

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No prefácio, Conceição Evaristo compara a posse da palavra à posse do “corpo-mulher”, a partir do qual emerge a identidade poética das quinze slammers publicadas. Para preservar o impacto dos versos e a oralidade desse gênero (marcado pela linguagem das ruas, da vida cotidiana), a editora fez valer o significado da expressão “licença poética”. Então não se assuste quando der de cara com algum artigo no plural seguido de um substantivo no singular. Não vá maldizer do pobre revisor.

Fazer da criação poética instrumento de proposição de luta começa pelo próprio não uso da norma da língua. Conscientemente, a ‘norma certa’, como advogam os puristas, é confrontada, esfacelada, ‘agredida’. – Conceição Evaristo

O slam já está presente em pelo menos 18 estados brasileiros. Em oito deles, apenas mulheres participam das “batalhas”. A poesia falada é defendida por elas como um legado que está além das fronteiras nacionais. E não apenas porque veio dos Estados Unidos, como parece óbvio à primeira vista. Na verdade, essa forma de expressão tem raízes muito mais profundas, dos rapsodos gregos aos trovadores medievais, da geração beatnik aos repentistas do Nordeste.

Essa é uma antologia que nasceu para alargar fronteiras, demarcar novos territórios. Cada palavra e rima, cada imagem e cena evocada merecem leitura, releitura e muita reflexão. Quanto ao projeto gráfico, só achei uma pena terem explorado tão pouco o traço poético (e igualmente combativo) da ilustradora Lela Brandão. A presença de mais desenhos no miolo do livro – talvez ilustrando os temas de cada poema – teria enriquecido o trabalho de todas as artistas envolvidas (a própria Lela, inclusive). Fica a dica para a Editora Planeta numa próxima edição.

Se você gosta de poesia contemporânea, não vai se decepcionar. Recomendo muito. E se não gosta, bem, o que acha de dar uma chance?

[…] as adolescentes que me contaram / que estão conseguindo enxergar / beleza nos seus traços / e sabem que seus cabelos e seus corpos são livres” – Ryane Leão

Em versos, o feminino não pede. Vai abrindo frestas que se alargam até virarem passagem. Vozes que gritam pelas transformações profundas de que nossa sociedade tanto precisa. Estrela D’Alva pergunta à Deus, num de seus poemas: “Por que às vezes eu ainda fico só, sem Vós? Sendo que tudo o que quero é estar com voz. […] Duvidar que dentro de mim há voz não é o mesmo que duvidar de Vós?”. O grito de Querem nos calar é do tipo que busca. Não espera pela resposta.

Todas as autoras: Anna Suav; Bell Puã; Bor Blue; Cristal Rocha; Carol Dall Farra; Danielle Almeida; Laura Conceição; Letícia Brito; Luiza Romão; Luz Ribeiro; Mariana Felix; Meimei Bastos; Negafya; Roberta Estrela D’Alva; Ryane Leão.

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J. K. RowlingHarry Potter, 1997-2007.

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