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Utopia

24 jun 19 4 mins. de leitura
por Ricardo Vergueiro

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Título Utopia
Autor(a) Thomas More
Tradutor(a) Márcio Meirelles Gouvêa Júnior
Editora Autêntica
Páginas 256
Ano 2017
Utopia é um marco da literatura ocidental. Rafael Hitlodeu é o viajante que conta à Thomas More sobre a existência de uma sociedade cuja vida e costumes ainda hoje poderiam ser considerados ousados. Obra-prima de um dos mais brilhantes filósofos e estadistas modernos, propõe reflexões sobre temas universais como igualdade, justiça e fraternidade. Um clássico da filosofia moderna que está na base de todo pensamento humanista desenvolvido do século XVI em diante. Ao tomar de empréstimo a palavra grega u-topos (não lugar) e empregá-la para batizar sua “ilha impossível”, Thomas More praticamente inaugura um novo gênero literário, mesclando as antigas narrativas de viagem a análises filosóficas e à sátira política.

Ler um clássico como Utopia nos dias de hoje pode parecer um exercício – desculpe o trocadilho infeliz – utópico demais. Isso porque, além do estilo literário, o tema de uma sociedade perfeita e pacífica numa época de endurecimento político pode atrair mais haters do que likes. Contudo, eu diria que é justamente por isso que a obra-prima de Thomas More (1478-1535) deve ser lida.

Publicado pela primeira vez em 1516 (em latim!), o livro foi escrito com a intenção de criticar os governos europeus da época, contando a história de uma ilha chamada Utopia, onde os cidadãos eram capazes de viver em harmonia e igualdade. Uma república justa onde os governantes eram guiados pela razão, com o propósito único de promover o bem estar coletivo.

Nesse contexto, é impossível separar a obra do escritor de sua filosofia de vida e visão de mundo. Afinal, Thomas More foi um notável humanista e estadista do século XVI, sendo muito preocupado com a desigualdade abissal entre a nobreza e os camponeses da Inglaterra de seu tempo.

Um governante que vive solitariamente no luxo e nos prazeres, enquanto à sua volta todos vivem em meio ao sofrimento e lamentações, estará atuando antes como carcereiro do que como um rei.

Em seu livro, More fala de poder, organização social, educação, economia, guerras, entre outros temas que ainda hoje despertam o interesse de cientistas políticos, sociólogos e estadistas ao redor do mundo. Apesar da palavra “utopia” não ser uma criação dele – pois remonta à Grécia Antiga e significa “não lugar”, ou “lugar nenhum -, o escritor certamente fez um bom uso da expressão e contextualizou bem suas ideias.

Mas não é preciso ser um acadêmico para curtir uma aventura filosófica como Utopia. Claro, por ser um clássico antigo, a linguagem é mais difícil e rebuscada, o que torna a leitura mais lenta e (infelizmente) bem chata em certos trechos. Apesar disso, o autor conseguiu falar de política, um tema naturalmente denso, usando uma criatividade sem tamanho que termina embalando a gente. Pois,  é impossível não ficar curioso para saber mais sobre a sociedade proposta na obra, os utopianos.

Além disso, a estrutura narrativa é curiosa. Rafael Hitlodeu, o personagem principal, está contando a história para duas pessoas: uma delas é Peter Gilles; a outra, ninguém menos que o próprio autor do livro, Thomas More. Um exercício metatextual comum atualmente, mas bem inovador para a época.

 […] Rafael notou, entre esses novos povos, instituições tão ruins quanto as nossas, mas observou também um grande número de leis capazes de esclarecer, de regenerar as cidades, nações e reinos da velha Europa.

Rafael Hitlodeu, nosso protagonista, é um marinheiro que esteve presente nas viagens de Américo Vespúcio e que, entre outras aventuras, teria vivido um tempo nessa ilha chamada Utopia. Na época em que foi escrito, vivia-se o contexto das grandes navegações. É claro, portanto, que a chegada dos europeus na América serviu de inspiração para a idealização dessa tal sociedade.

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Quando li certas passagens, fiquei na dúvida se era uma “utopia” ou, na realidade, uma “distopia”! Porque é inegável que há ingredientes totalitários na receita utopiana de More, o que seria de se esperar em qualquer sociedade julgada como perfeita. Em Utopia, os governantes definem cada pormenor da vida de seus cidadãos, visando, é verdade, o bem-estar geral.

[…] o número de adultos é controlado por meio da transferência de casa, onde há adultos demais para outra onde os há de menos. […]

Nesse mundo distante não há propriedade privada, considerada imoral e contrária a virtude. Esse é, por exemplo, um dos trechos em que se nota a influência do filósofo grego Platão, autor do clássico “A República”. E assim como na obra platônica, em Utopia há vários pontos bem polêmicos.

Posso dizer que gostei dessa “viagem”; e acho que vale a pena enfrentar o desafio desse texto mais hardcore do autor. A gente termina descobrindo, em um livro do século XVI, uma crítica social que ainda cabe perfeitamente nos dias de hoje. Para quem se interessar, recomendo a edição bilíngue que a Editora Autêntica lançou em 2017 em comemoração aos 500 anos da primeira publicação. A arte e todo o projeto gráfico ficaram show de bola!

[…] A meio caminho entre a literatura e a filosofia, na zona de passagem entre um não lugar que nega nossas misérias e um bom lugar que as torna talvez insuportáveis, a utopia de More é um patrimônio cultural tão rico que não cabe mais apenas no espaço comprimido da tradição acadêmica […]
Andityas Soares de Moura Costa Matos, filósofo e autor do posfácio da edição comemorativa da Editora Autêntica.

Mas, afinal, por que ler Utopia? Bem, as democracias liberais vêm sofrendo sucessivos ataques ao redor do mundo. A cada dia estão nascendo, e sendo alimentadas na internet mais e mais bandeiras do ódio, seja por imigrantes ou outras minorias. Das redes sociais elas estão fermentando para as ruas e virando plataformas políticas em muitas nações do Ocidente. Tudo com potencial para reproduzir o que, tragicamente, foi acontecer ao próprio autor de Utopia:

Thomas More chegou a ser conselheiro particular do rei Henrique VIII, além de ser eleito, em 1523, para a presidência da Câmara dos Comuns. Apesar da carreira brilhante, o católico fervoroso More foi condenado por traição ao não reconhecer a superioridade do rei sobre a Igreja Romana. Em razão disso, foi condenado e decapitado em 1535.

No cenário atual, seria bom, em termos de conscientização, que mais pessoas também lessem utopias como as de Thomas More. Principalmente, para entender de vez que histórias de sociedades perfeitas não foram escritas para se tornarem reais, mas sim para inspirar cada cidadão imperfeito a encontrar a melhor versão de si. E, consequentemente, a melhor versão – possível – de sociedade.

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