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Resenhas

Vivendo a Comunicação Não Violenta

13 out 19 6 mins. de leitura
por Ricardo Vergueiro
Esta publicação é fruto de uma PARCERIA

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Título Vivendo a Comunicação Não Violenta
Autor(a) Marshall Rosenberg
Tradutor(a) Beatriz Medina
Editora Sextante
Páginas 192
Ano 2019
A Comunicação Não Violenta (CNV) é um dos temas mais transformadores e fundamentais que nós da Sextante já publicamos. Ela é tão essencial que deveria ser ensinada a todas as pessoas, assim como ler, escrever e fazer as quatro operações matemáticas. Mais do que uma técnica para resolver conflitos, é um modo de ser, de pensar e de viver que, como diz Marshall Rosenberg, “nos ensina a expressar o que está vivo em nós e a enxergar o que está vivo nos outros. Assim podemos descobrir o que fazer para enriquecer essa vida.

“Ninguém escuta ninguém hoje em dia”; “As pessoas estão reagindo com mais violência quando contrariadas”; “Vivemos a era dos haters”; Imagino que essas e muitas outras frases não sejam novidades para você, caro leitor. E o que não faltam são livros abordando esses temas. Vivendo a Comunicação Não Violenta – Como estabelecer conexões sinceras e resolver conflitos de forma pacífica e eficaz é uma dessas publicações que – a exemplo de outros lançamentos na área da psicologia aplicada (e de viés coaching) – propõem tornar as trocas humanas mais assertivas e civilizadas.

Marshall Rosenberg é psicólogo clínico com experiência na mediação de conflitos de diversas naturezas, das brigas de casal a lutas entre tribos em países como Ruanda e Nigéria. Ao longo de quase 200 páginas, Rosenberg defende seu método de Comunicação Não Violenta (CNV) para a resolução de mal-entendidos que, segundo ele, estariam nas raízes de todas as guerras.

O autor norte-americano começa detalhando as três esferas de atuação da CNV: o “falar não-violento” (comunicação pacífica e assertiva das necessidades e sentimentos dos envolvidos), o “ouvir não-violento” (percepção das necessidades do outro sem julgamentos e críticas) e o autodialogar (estruturação de nossa “conversa interior” baseada na autopercepção, sem culpas, indulgência ou outras formas de cobrança).

[…] três fatores são muito importantes para entendermos por que, em situações similares, alguns de nós reagem com violência e outros reagem com compaixão: 1. A linguagem que fomos ensinados a usar; 2. Como nos ensinaram a pensar e a nos comunicarmos; 3. As estratégias específicas que aprendemos para influenciar os outros e a nós mesmos.

Por meio de diálogos simulados com participantes de workshops e rodas de conversa, Rosenberg coloca os participantes em papéis-chaves como “a mãe”, “o marido”, “a esposa”, etc., ilustrando assim como seriam os mal-entendidos mais comuns e as maneiras de contorná-los pacificamente. O resultado: uma prática respeitosa que garantiria um cooperação genuína entre essas pessoas.

Dividido em seis capítulos – destaque para a resolução de conflitos conjugais e dicas para educação de crianças –, o livro como um todo é bem didático e de leitura fluida. Segue a estrutura de tópicos, como numa palestra (tive a impressão de estar lendo um mega power point), e há trechos de entrevistas e workshops do autor transcritos na íntegra.

O primeiro ponto seria, para Rosenberg, identificar as necessidades de todos os lados envolvidos. Depois, apontar as estratégias para satisfazer essas necessidades. Por exemplo, alguém pode imaginar que terminar um relacionamento amoroso seja uma necessidade. Porém, na verdade, isso seria apenas uma estratégia (dentre outras) para atingir a necessidade real, no caso, a necessidade de afeito, compreensão, segurança etc.

Rosenberg descreve casos reais que tiveram sua mediação, deixando clara a importância de uma figura de “ponte” entre as partes. Foi aí que tive uma impressão estranha. Parece que o autor mirou o bônus sem se importar muito com o ônus pela escolha narrativa. Nessa caso, descrever e reconstituir diálogos com pacientes e episódios de conciliações validam e dão, no contexto da obra, uma consistência maior à teoria.

Porém, uma vez utilizado esse recurso seria fundamental, ao meu ver, contextualizar melhor esses “personagens” e ambientes (o tal “ônus”, digamos assim, para um livro que se pretende ágil e prático como um workshop). Há um contraste gritante entre a seriedade dos casos descritos e a rapidez com que o autor “fecha o assunto e pula para o próximo”.

Um exemplo que me chamou a atenção (me incomodou, na verdade) está num trecho em que o autor explica que nem sempre é possível juntar as duas partes para a resolução de um conflito. Nesses casos, ele faria o papel da pessoa ausente, usando um gravador para registrar a conversa a ser depois mostrada para quem não pudera ou quisera participar. Na passagem a que me refiro, uma mulher procura Marshall para que ele a ajudasse com o marido, “principalmente pelo modo como ele lidava com a raiva, chegando a agredi-la algumas vezes”. Marshall ligou o gravador e fez o papel do esposo.

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“[…] escutei o que ela dizia e, com respeito, ouvi os sentimentos que expressava e como ela se sentia ao apanhar e não ser compreendida como gostaria. Escutei de maneira a ajudá-la a exprimir as próprias necessidades com mais clareza, de modo que demonstrasse o entendimento respeitoso do que ela precisava. Então, ainda no papel do marido, disse quais achava que seriam as necessidades do marido e lhe pedi que me ouvisse […] Quando ela levou a gravação ao marido, que ouviu como eu representara seu papel, foi grande o alívio que ele sentiu. Aparentemente, eu adivinhara com exatidão quais eram suas necessidades. Em consequência da compreensão que ele sentiu graças à empatia com que representei seu papel, ele veio à sessão e continuamos a trabalhar juntos até que ambos encontraram outras maneiras de atender às próprias necessidades sem o uso da violência”.

É isso. Ele parte para outro caso e ficamos com a impressão de que detalhes da história ou foram maquiados ou ocultados. Mulher sofre violência doméstica em razão (talvez) de não adivinhar as necessidades do marido com a mesma exatidão de Rosenberg? Exposição mais assertiva é capaz de evitar violência física? Houve mais fatores envolvidos? Quais?

Ao não explicar melhor o contexto do caso, Rosenberg fragiliza o tipo de abordagem que ele defende, expondo-a a possíveis acusações de superficialidade e até banalização (avaliações talvez injustas frente aos prováveis percalços que o autor, imagina-se, tenha vivido com esse e outros tantos casais).

Acontece que, ao expor com ligeireza um caso como o citado, que suscitaria tantas questões paralelas em tempos de abusos e denúncias de feminicídio, o próprio autor dá munição de graça para, na melhor da hipóteses, ser taxado de vago. Embora não se refira à CNV desse jeito, esse tratamento pode insinuar um certo “dom mágico” da técnica para resolução de conflitos que se configuram, até mesmo, como um crime.

Quando for estimulado por outra pessoa e vir que está começando a sentir raiva, é importante gerenciar essa emoção.

Em outra ocasião, o psicólogo é chamado para mediar um conflito entre duas tribos na Nigéria. Havia ocorrido ali uma onda enorme onda de violência, com um saldo de 100 mortes. Apesar de ressaltar as enormes dificuldades e horas a fio de discussões, com ambos os lados tratando-se mutuamente como assassinos, ele termina destacando como, no mesmo dia, havia membros das duas tribos abertos à CNV.

Segundo um dos chefes de tribo citados por Rosenberg, “… não vamos conseguir aprender esse modo de nos comunicarmos num dia só. Mas que se aprendermos a nos comunicar assim não precisaremos mais nos matar uns aos outros”. Qual seria o mérito maior da CNV ou da figura de Rosenberg enquanto comunicador? Nesse caso circunstancial, não fica clara a dosagem de um e de outro e, consequentemente, não daria para pôr o sucesso na conta exclusiva da CNV que o livro procura vender como solução.

Para mim, Rosenberg é mais convincente no capítulo “Criando filhos com compaixão”. Nele, o autor defende uma conexão entre pais e filhos com enfoque na colaboração, ao invés das limitações e punições mais comuns. Aqui, não duvido que a técnica funcione no curto prazo. Já para outros cenários e situações, prefiro manter um saudável ceticismo.

Meus filhos me ensinaram que todo uso de coerção da minha parte invariavelmente criava resistência da parte deles, o que podia provocar uma qualidade na conexão entre nós que insinuava que fôssemos adversários.

É inegável a importância de um método que ajude a resolver conflitos, e a Comunicação Não Violenta demonstra ter vários méritos a esse respeito. O livro é competente na apresentação e propaganda dessa “ferramenta” útil e benéfica. Como já dito, deixou muitas lacunas. Enquanto manual para pequenos conflitos me convenceu bem, mas nem de longe me arriscaria a mediar casos de agressão e morte usando “tópicos de power point”! Se você gostou do artigo, não deixe de conferir outras resenhas de lançamentos aqui no blog.

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