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Resenhas

Vox por Christina Dalcher

09 abr 19 4 mins. de leitura
por Mandy Ariani
Esta publicação é fruto de uma PARCERIA

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Título Vox
Autor(a) Christina Dalcher
Editora Arqueiro
Páginas 320
Ano 2018
O governo decreta que as mulheres só podem falar 100 palavras por dia. A Dra. Jean McClellan está em negação. Ela não acredita que isso esteja acontecendo de verdade. Esse é só o começo... Em pouco tempo, as mulheres também são impedidas de trabalhar e os professores não ensinam mais as meninas a ler e escrever. Antes, cada pessoa falava em média 16 mil palavras por dia, mas agora as mulheres só têm 100 palavras para se fazer ouvir. ...mas não é o fim. Lutando por si mesma, sua filha e todas as mulheres silenciadas, Jean vai reivindicar sua voz.

Recentemente, certos livros têm sido chamados de “distopias feministas” por muitos leitores, pois são narrativas que costumam abordar a desigualdade de gênero em níveis extremos. Na minha concepção, essas histórias são muito importantes nos dias de hoje – é sempre bom alertar, e essas realidades podem estar mais próximas do que imaginamos. Nesse contexto, temos Vox, o mais recente sucesso de Christina Dalcher!

Através de um conceito distópico extremamente cruel, principalmente para as mulheres, Vox nos causa um misto de sentimentos. Raiva, angústia, medo e esperança são só alguns deles, afinal essa distopia traz situações e comportamentos que são demasiadamente similares à nossa realidade. Então, nós ficamos com uma sensação crescente de que isso poderia acontecer a qualquer momento.

Sinceramente, se fazermos certos paralelos com a contemporaneidade, isso já acontece. Nós temos líderes religiosos influenciando fortemente em decisões com relação às mulheres, nós sabemos que em diversos lugares o público feminino não tem voz alguma, nós vemos – muito claramente – que a baixa participação feminina no Congresso ainda é uma realidade, etc. Portanto, pensar em todo o ambiente mostrado em Vox é assustador – justamente pelas semelhanças com a nossa sociedade.

Tento me convencer de que não é minha culpa. Eu não votei no Myers. Na verdade, eu não fui votar.

O enredo de Vox nos traz a trágica história de Jean McClellan, uma Doutora especializada na  área de Wernicke – a parte do cérebro responsável pela linguagem. Ironicamente, nos dias atuais, a Jean não pode mais falar como gostaria. Na verdade, ela só pode falar 100 palavras por dia.

– Vocês não fazem ideia, senhoritas. Absolutamente nenhuma ideia. Estamos a um passo de voltar à pré-história, meninas. Pensem nisso. Pensem onde vocês vão estar, onde suas filhas vão estar, quando os tribunais atrasarem os relógios. Pensem em expressões como “permissão do cônjuge” e “consentimento paterno”. Pensem em acordar um dia e descobrir que não têm voz em nada.

A Jean gostaria de poder ter previsto o futuro, mas agora tudo o que ela pode fazer é lidar com o que está acontecendo. Ainda é difícil para ela acreditar que Os Estados Unidos está sendo comandado por uma ditadura extremista, na qual a religião tem um papel fundamental. Desde que o Movimento Puro eclodiu, tudo mudou. Para começar, metade da força de trabalho do país foi removida de seus cargos para voltarem a ser donas de casa submissas ao marido. Não bastasse isso, o governo surgiu com os contadores, que são os aparelhos responsáveis por contabilizar as palavras das mulheres durante o dia.

Agora, Jean passa os dias em casa com memórias de sua antiga vida, enquanto seu marido – Patrick – é o provedor do lar. Isso não é nada bom para eles, já que o casal tem quatro filhos e os salários de ambos ajudavam na criação das crianças. Para piorar, Jean não suporta ver a sua única filha, Sonia, ter a sua infância completamente alterada. Contudo, quando uma grande oportunidade surge para Jean, ela não pode deixar de desejar por sua voz.

Christina Dalcher é uma escritora super talentosa, o modo como ela nos conecta com a mente da Jean é incrível. Nós começamos a entender a personagem, mas também questionamos alguns de seus comportamentos. Além disso, a autora nos trouxe diversos personagens interessantes e distintos, que reagiram de diferentes formas ao Movimento Puro.

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Sem dúvidas, houveram algumas sacadas muito boas nessa narrativa, como a maneira com que a Christina Dalcher usa os filhos da Jean para tangibilizar todas as mudanças que estão acontecendo no próprio modo de pensar das pessoas – principalmente dos jovens. É muito perturbador ver como alguém pode mudar completamente graças à uma lavagem cerebral bem feita.

Talvez tenha sido isso o que aconteceu na Alemanha com os nazistas, na Bósnia com os sérvios, em Ruanda com os hutus. Às vezes eu refletia sobre isso, sobre como as crianças podem se transformar em monstros, como aprendem que matar é certo e a opressão é justa, como em uma única geração o mundo pode mudar tanto até ficar irreconhecível.

O conceito distópico de Vox é bem desenvolvido, nos permitindo traçar diversos paralelos com a nossa realidade. Contudo, se assim como eu, você é uma pessoa que ama detalhes e gosta de explicações completas, então talvez sinta que faltou um pouco mais de esclarecimento na obra. Inclusive, muitos leitores sentem que deveria haver mais informações ao final do livro, mas isso varia a partir do gosto de cada um.

Enfim, Vox é um livro interessante, bem construído e que vale a pena ser lido. E, se você tiver a oportunidade de ler com outras pessoas, eu recomendo! Eu organizei e participei de uma leitura conjunta com diversos leitores e foi incrível poder conversar e trocar ideias sobre a trama.

É um choque de realidade atrás do outro. Vox é uma distopia que parece distante, mas se desenrola de forma tão assustadoramente semelhante à realidade atual que parece que poderia acontecer a qualquer momento.

Mia LeociGrupo de Leitura VOX, por Sentimento de Leitor.

Vox figura uma narrativa perturbadora, e apesar de ser uma distopia, nos faz temer verdadeiramente pelo futuro.

Caique MonteiroGrupo de Leitura VOX, por Sentimento de Leitor.

Spoiler:

Na minha concepção, algumas coisas foram um tanto desnecessários para a trama, e outras foram convenientes demais. Por exemplo, a mãe da Jean sofrer um aneurisma cerebral no mesmo lugar em que ela se especializou, ou o envolvimento de Patrick no final. Fora isso, temos o romance da Jean com Lorenzo – que para mim, não funcionou muito bem com a narrativa.

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