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Inteligência Artificial em Hollywood: diga adeus aos filmes originais!
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Inteligência Artificial em Hollywood: diga adeus aos filmes originais!

05 jun 19 9 mins. de leitura
por Caique Araujo

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Há algumas décadas atrás, Hollywood já visualizava um mundo tomado por robôs e máquinas inteligentes que dominariam a sociedade. Mas, ninguém previu que a cidade da fama, em breve, será controlada por uma inteligência artificial. Isso pode significar não apenas o fim dos filmes como os conhecemos, mas também na pasteurização da indústria. Confira, agora, uma análise aprofundada sobre o tema!

Hollywood: A máquina de fazer dinheiro

O cinema é a porta para a fantasia, onde tudo ganha vida. Como toda arte, é um meio de expressar e propagar ideias, pensamentos ou críticas a sociedade. Por conta disso, com o passar do tempo, Hollywood percebeu que obras cinematográficas renderiam uma indústria completa. Foi então, em 1915, que decidiram transformar o jeito de fazer cinema em uma arte de gerir negócios. Em virtude deste pensamento, hoje as produções contam com recursos exorbitantes e uma quantidade enorme de trabalho e dedicação. Como consequência, para que os produtores possam investir em qualquer filme é necessário muita pesquisa de mercado.

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Hollywood é a máquina de fazer dinheiro

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Hollywood tornou-se uma indústria multi-bilionária que fatura, em média, mais de 5 bilhões ao ano.

Geralmente, as pesquisas de mercado baseiam-se em dois principais fatores: o que o estúdio deseja produzir e o retorno que algum material parecido já obteve. Sem dúvidas, com tantos anos da indústria cinematográfica, os setores conquistaram experiência. Eles conseguiram entender todos os pontos que “melhoram” a performance de uma obra. Resultando, assim, em sucesso de bilheteria com alta margem de retorno. Devido a frequência de utilização dessas expertises, notou-se que, de 2012 para cá, muitos filmes lançados não são frutos de um extenso trabalho de criatividade e geram, no mercado, “mais do mesmo”.

Eu, por exemplo, sou um crítico assíduo da ausência de criatividade cada vez mais constante nas produções cinematográficas americanas. Como eu já havia dito em 2015, no artigo sobre a falta de criatividade em Hollywood, cada vez menos histórias se destacam como “a grande novidade” ou como “simples e original”. Se você é uma pessoa, assim como eu, que nutriu baixas expectativas sobre novos lançamentos é bom estar preparada. O fim da criatividade cinematográfica pode estar próximo.

Tudo isso deve-se ao fato de que a indústria cinematográfica é repleta dos “e se…”. Projetos que não dão certo por uma mudança de elenco, roteiro ou corte. “E se o Zack Snyder tivesse lançado seu filme da Liga da Justiça”. “E se a Tomb Raider fosse a Gal Gadot ao invés da Alicia Vikander”. Para a galera que faz dinheiro com a indústria essas são questões relevantes e moldam os filmes que são lançados hoje. Eles querem saber o que vai ou não vai funcionar. É nesse mar de necessidades que a inteligência artificial ganha espaço. Afinal, ela pode “resolver” essas questões.

Inteligência Artificial

Chegamos a um estágio tecnológico onde máquinas são capazes de aprender. Esta é uma técnica conhecida como Machine Learning e uma pegada de Rede Neural. Seu funcionamento básico opera da seguinte forma: um algoritmo analisa uma base de dados para treino, com resultados pré-determinados; então, ele aprende alguns padrões que levam a determinado resultados; por fim, após muito treino, a máquina é capaz de “prever” resultados com base em seu aprendizado.

Apesar de parecer complexo é bem mais simples do que parece. Para começar, a inteligência artificial é justamente “artificial” por “emular” decisões. Nenhuma máquina e nenhum algoritmo, pelo menos por agora, possuí consciência da sua própria existência e/ou propósito. Os novos algoritmos que nasceram com a “ciência de dados”, portanto, são apenas novas metodologias para lidar com os dados a fim de compreender e prever os seus resultados.

Mergulhando em um exemplo mais pragmático, imagine um algoritmo idealizado para identificar fotos de gato. Na fase inicial, milhares de fotos serão separadas e, entre elas, grupos com e sem gatos. O papel da inteligência artificial nesta fase é acertar por “puro chute” se existe ou não um gato na foto. Ao longo de diversas tentativas e erros, a inteligência irá “aprender” a detectar gatos com maior precisão. Logo, quando aplicada em uma base real de dados, ela é capaz de identificar a presença ou ausência de um gato na imagem.

Teste na prática

Se despertou o seu interesse, tenho um site bem legal para apresentar: o Quick Draw with Google. A proposta é “brincar” com uma inteligência artificial baseada em rede neural criada por eles. Por lá, você vai desafiar a inteligência realizando múltiplos desenhos. O objetivo é que ela descubra o mais rápido possível o que você está desenhando.

A inteligência artificial aplicada em Hollywood

Agora, voltamos ao ponto crucial deste artigo. Como a inteligência artificial será responsável por transformar a indústria e, quem sabe, matar a criatividade? A resposta está com a empresa Cinelytic, sediada em Los Angeles. Ela promete que os seus algoritmos de inteligência artificial serão os melhores produtores de um estúdio. Isso porquê a empresa recolheu milhares de informações sobre o histórico de performance dos filmes nos últimos anos e projetou um algoritmo para tomar decisões. Para tanto, baseou-se nos temas que os filmes carregam e o núcleo de atores.

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Tela do software de inteligência artificial da Cinelytic

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O software de inteligência artificial da Cinelytic permite que os usuários gerencie projetos, simule cenários e tomem decisões.

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Na prática, a solução deles propõe que será possível que um produtor selecione um elenco, insira algumas informações e depois faça trocas entre os dados para ver como essas mudanças afetariam a bilheteria projetada. Em outras palavras, seria possível determinar se o filme do Batman teria mais sucesso com o Robert Pattinson ou Ben Affleck, por exemplo. Na entrevista para a Verge, Tobias Queisser, CEO e co-fundador da Cinelytic, afirmou que o software permitirá uma comparação com elenco inteiro e diferente cenários com diversos atores e atrizes. Nas palavras dele:

Modele dois cenários com a Emma Watson ou a Jennifer Lawrence e veja, para esse filme em particular, qual é a melhor para diferentes territórios.

Entretanto, vale ressaltar que esta não é uma novidade. Em 2015, uma empresa fundada na Bélgica chamada de ScriptBook desenvolveu uma estratégia de inteligência artificial capaz de prever o sucesso de um longa metragem apenas analisando o roteiro. Em outra parte do mundo, a startup israelense Vault promete prever quais dados demográficos assistirão os seus filmes baseado nos trailers divulgados na mídia. Enquanto que uma empresa chamada Pilot oferece análises parecidas como uma antecedência da previsão em 18 meses antes do lançamento.

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Scriptbook

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O software de inteligência artificial da Scriptbook consegue mapear a história e traduzir os dados de acordo com a aceitação provável do público.

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Vault

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Já o software de inteligência artificial da Vault detecta os elementos presentes nos trailers e como eles influenciam a decisão de assistir ao filme.

Entre todas elas, o Cinelytic destacou-se por ter o seu coração em Hollywood. Isso permite que o mercado seja mais centralizado, portanto gere mais visibilidade à solução entre os estúdios. Mas, então, significa que todas as produções serão sucessos garantidos em bilheteria? Não exatamente. Como eu desenvolvi há pouco, uma inteligência artificial preditiva ainda é “burra”. Ela não tem consciência das suas escolhas, apenas as faz baseadas em padrões que conseguiu identificar. Além disso, inúmeras variáveis utilizadas por essas empresas são extremamente mutáveis como: o gosto do público e fenômeno do hype.

A verdade sobre a inteligência artificial

Em 2016, por exemplo, um artigo acadêmico afirmou que previsões sobre lucratividade de um filme podem ser feitas baseados em poucas variáveis – neste caso, tema e elenco. Mas, o mesmo artigo também confirma que essas estatísticas podem ter falhas e uma margem de erro considerável. Afinal, os dados para esses algoritmos teriam origens em produções passadas e não conseguiriam explicar e determinar, por exemplo, mudanças culturais que podem acontecer entre um lançamento e outro.

É valido ressaltar que nenhuma das empresas citadas provaram seus resultados, exceto o Scriptbook. Como desafio à tese, o ScriptBook compartilhou suas previsões bem sucedidas feitas entre 50 filmes lançados entre 2017 e 2018. Entre eles Hereditário, Jogador Número Um e Um Lugar Silencioso. Enquanto a indústria, com suas pesquisas tradicionais, conseguiu uma taxa de precisão de 44%, o Scriptbook “previu” corretamente o que um filme ganharia 86% do tempo. Mas, apesar deste número cativante, nem sempre o algoritmo resulta em um excelente trabalho. Como foi o caso de “Corra!“, de Jordan Peele. A empresa previu U$ 56 milhões em bilheteria, enquanto o terror arrecadou U$ 176 milhões.

Quando analisamos do ponto de vista dos algoritmos fica óbvio as origens do erro. Corra! foi uma produção que contou com elenco enxuto, na maior parte desconhecido, e, também, com um diretor estreante. É como se a inteligência artificial ressaltasse o óbvio. Não é necessário ter um algoritmo sofisticado para saber que Tom Cruise, por exemplo, irá aumentar as chances de sucesso de um filme. E, por outro lado, o algoritmo sempre diria que um filme com ator desconhecido não resultaria em muito sucesso. E esse é o maior problema dos algoritmos preditivos de inteligência artificial tomarem a decisão final: eles impedem a descoberta de novas oportunidades. Se todos filmes fosse baseados neles, nenhum novo ator seria lançado, diretores estreantes nem teriam chances e as ideais totalmente fora da caixa seriam descartadas.

Esse ainda é um dos maiores desafios de qualquer inteligência artificial. Eles só são capazes de prever variáveis não-randômicas. Mudanças culturais ou no gosto do público ficam de fora. Um fato curioso da falha, por exemplo, foi quando a Amazon decidiu utilizar uma IA para recrutar novos colaboradores. Entretanto, o algoritmo penalizou os candidatos do sexo feminino por ter “aprendido” associar as proezas tecnológicas e de engenharia aos homens, incapacitando as mulheres. Outro evento que demonstra a inutilidade dos algoritmos é o filme Warcraft. Lançado em 2016, por serem rara as adaptações de jogos para a tela, seria difícil prever quanto o filme poderia acumular em bilheteria.

E agora?

Talvez seja por esse motivo que Hollywood ainda olhe com certo ceticismo para essas soluções. Obviamente, isso não excluí a inutilização completa da inteligência artificial. A Netflix, por exemplo, adora gabar-se pela sua programação completamente baseada em análise de dados embora também tenha perdido muito dinheiro. Desde que fora lançada, a plataforma de streaming monitora as ações dos assinantes afim de não apenas aumentar o tempo de uso da plataforma mas, também, identificar quais tipos de material os utilizadores querem ver.

Particularmente, eu acredito em Data Science e sei que esse é o futuro da informação. A arte de extrair, analisar, interpretar e prever os dados. Mas, se esse for realmente o futuro da produção cinematográfica, a inteligência artificial deve ser utilizada apenas como uma ferramenta complementar e não a responsável pela decisão final sobre um filme. Afinal, se isso acontecesse, não seriamos capazes de apreciar novas ideias – como já não estamos sendo. Nós definitivamente não queremos isso.

O problema, entretanto, é que Hollywood tem se posicionado como uma indústria faminta. Com tantos sucessos bilionários nos cinemas, todo mundo quer usufruir desta tendência. Logo, a utilização desses softwares poderia ser transformada em um vídeo. Tudo para garantir o sucesso. Mesmo com todos os pontos negativos à respeito, na hora do aperto, decisões podem ser tomadas da forma errada. Estrangulando cada vez mais a criatividade e o inexplorado ao redor da cidade da fama. Seria esse o fim dos filmes originais? O que você acha a respeito?

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