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O Conto da Aia e a submissão contemporânea
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O Conto da Aia e a submissão contemporânea

12 out 18 6 mins. de leitura
por Mandy Ariani

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The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia, em português) é um romance distópico escrito pela romancista canadense Margaret Atwood. Ninguém esperava que uma obra literária publicada em 1985 fosse conquistar, quase que instantaneamente, um novo fervor mundial, mas quando a série The Handmaid’s Tale estreou, o resultado não poderia ter sido diferente e há diversas razões para isso. Sendo assim, esse artigo apresenta uma reflexão necessária e válida para os dias de hoje. Continue a leitura para saber mais!

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Livro O Conto da Aia

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The Handmaid’s Tale foi publicado em 1985. A série inspirada na obra estreou em 2017 e conta com duas temporadas.

Para início de conversa, eu posso afirmar que O Conto da Aia não é um livro fácil de ser lido, principalmente, para as mulheres. Nessa sociedade fictícia, Os Estados Unidos da América agora se intitula República de Gileard, o país sofreu uma revolução teocrática e passou a ser governado por cristãos, extremamente, radicais. Agora, o Antigo Testamento é a lei. Nesse contexto, conheceremos a Offred, uma Aia que teve sua vida tomada e agora serve o novo regime. Com o passar da narrativa, descobrimos com a protagonista que o mundo sofreu uma onda de infertilidade, é assim que surgem as Aias, mulheres ainda férteis cujo único propósito é gerar filhos para os patriarcas. O livre arbítrio não é mais uma realidade. A população feminina foi dividida em classes bem estabelecidas, na qual as Esposas atuam como dirigentes do lar; as Marthas são responsáveis pelo trabalho doméstico; as Aias devem reproduzir, e por fim, as Tias, soberanas que educam as Aias para serem submissas.

Somos úteros de duas pernas, isso é tudo: receptáculos sagrados, cálices ambulantes.

Quando Margaret pensou no universo de O Conto da Aia, a mesma considerou o totalitarismo americano. E um dos fatores que explica o sucesso do livro, é a atual situação política do mundo, na qual observamos cada vez mais discursos parecidos com os vistos em The Handmaid’s Tale. A escritora alcançou uma posição de profetisa quando políticos com uma manifestação misógina e machista, progressivamente, começaram a alcançar posições de poder.

Estranho lembrar como costumávamos pensar, como se tudo estivesse disponível para nós, como se não houvesse quaisquer contingências, quaisquer limites; como se fôssemos livres para moldar e remoldar para sempre os perímetros sempre em expansão de nossas vidas.

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Mulheres na Polônia se vestem como Aias para receber Donald Trump.

Margareth não poupa o leitor de cenas chocantes e incômodas, justamente para o público sentir o alerta contra governantes que anseiam, não só pelo poder, mas também por impor suas crenças e ideias. Atwood nos  mostra que é justamente em um momento de fragilidade que a população deve se atentar, pois o povo inclina-se a confiar naqueles que prometem resultados acelerados através de discursos radicais, mesmo que para isso seja necessário encolher as liberdades e demais direitos.

Além disso, Acerca da abordagem dos religiosos no poder, uma das questões que permanecem é: Até que ponto é válido ter representantes de alguma religião decidindo pelo povo? No Brasil, por exemplo, temos uma Frente Parlamentar Evangélica diretamente envolvida em questões de saúde pública e afins.

O propósito de todas as crenças é ter sempre muitos seguidores, daí a importância do papel feminino na procriação. – Margaret Atwood

O Conto da Aia não é só um alerta para uma profecia, ou seja, algo que poderia acontecer. É algo que acontece todos os dias. A barbárie vista na série e nos livros acomete diversas mulheres pelo mundo. Por isso, o universo da Margaret assusta, a similaridade entre a sociedade distópica criada e a nossa sociedade atual não é uma mentira. No Brasil,  registrou-se 1 estupro a cada 11 minutos em 2015, dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

E mesmo assim, para meu desgosto, temos políticos ganhando uma boa visibilidade através de piadas machistas, bem como humoristas satirizando o problema da violência contra a mulher, como se esse distúrbio já não fosse suficientemente banalizado no nosso país. Como uma amostra dessas sátiras, posso citar o programa de TV “The Noite com Danilo Gentili”, em 2015, o tema do ENEM “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira” foi alvo de piadas:

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The Noite com Danilo Gentili

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The Noite com Danilo Gentili é um programa de TV do SBT.

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Eu já li que a cada 12 segundos uma mulher sofre violência no Brasil, mas estou escrevendo a redação há 30 e não vi nenhuma apanhando. – Leo Lins

“Também é preciso ver quem fez a pesquisa. Como saber se o sangue é de violência ou ciclo menstrual? Afinal o sangue que sai de um corpo é o mesmo, não importa o buraco. – Leo Lins

Em um país com altos índices de violência contra o público feminino, essas piadas politicamente incorretas não representam uma quebra de paradigmas e tão pouco pregam o respeito a liberdade de expressão. Essas sátiras são, na verdade, uma grande irresponsabilidade. Ainda mais, se consideramos que muitas mulheres deixam de denunciar seus agressores não só por ameaças, mas também por medo de não serem levadas a sério. E quer saber um fato triste? Muitas realmente não são.

E quanto ao feminismo?

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Madeline Brewer interpreta uma Aia chamada Janine em The Handmaid’s Tale.

The Handmaid’s Tale aumentou as discussões sobre o feminismo. Não só pelos debates e reflexões que a série causa, mas também pelas referências ao seriado que foram utilizadas por mulheres em protestosÉ difícil assistir à segunda temporada justamente por ser tão relevante. Parece que é algo que está acontecendo dentro das nossas casas, disse Madeline Brewer. Temos um entendimento da nossa responsabilidade em fazer algo que seja criativo e que seja entretenimento, mas que também seja muito verdadeiro e impactante. É claro que tudo o que eu faço no meu trabalho e com a minha personagem está relacionado ao que acontece nos Estados Unidos e no mundo. Eu acho que ignorar isso seria um desserviço ao meu trabalho.

Além de Madeline, Joseph Fiennes, ator que interpreta o comandante Fred Waterford, falou sobre a influência da série em seu “estado de consciência”. Certamente, a série me empurrou para um estado muito mais de alerta da desigualdade entre os sexos, disse ele em uma entrevista à Marie Clair.

Em virtude disso, eu me sinto muito mais ligado ao feminismo, o que isso significa e quais são os seus objetivos. Eu quero que minhas filhas vivam em um mundo onde há igualdade e paridade de salários. Nós temos um longo caminho a percorrer. Eu leio as estatísticas de que, se você é uma mulher hispânica, está há mais de 200 anos até alcançar a paridade de pagamento. Então, sim, a série me sacudiu para um estado muito mais consciente dessas questões. – Joseph Fiennes

Há quem defenda que o feminismo de hoje não é autêntico e o que acontece de verdade são mulheres querendo ter privilégios sobre os homens. Porém, feminista é uma pessoa que acredita que os direitos políticos, econômicos e sociais devam ser igualitários.

Se alguém tira da equação a palavra “igualdade”, então não é o feminismo que essa pessoa defende. De qualquer maneira, o feminismo veio a tona nos debates sobre a obra de Margaret pelo fato de em O Conto da Aia as mulheres serem as últimas na pirâmide de importância. Logo, não há nenhuma conformidade entre os sexos nessa distopia.

É necessário mostrar às pessoas que elas são mais livres do que pensam para quebrar pensamentos errôneos construídos em outros momentos históricos. – Michel Foucault

Adentrar no universo da Aia foi muito reflexivo para mim, assim como pensar, mesmo que isso seja doloroso, no público feminino que sofre diariamente algum tipo de abuso. Por fim, aviso que The Handmaid’s Tale é uma obra angustiante, então se você é muito sensível a esse tipo de conteúdo pode não ser boa escolha. Não deixe de me contar nos comentários se você concorda comigo e se já teve alguma experiência com essa história!

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