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The Big Bang Theory: final comum e sem novidades
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The Big Bang Theory: final comum e sem novidades

19 maio 19 6 mins. de leitura
por Caique Araujo
ATENÇÃO: Esse artigo poderá conter alguns spoilers

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Acabaram os 12 anos repleto de muitas histórias. The Big Bang Theory, a princípio, não fugia do convencional: apenas mais uma série de um grupo de amigos, mostrando suas rotinas comuns. O grande diferencial, entretanto, foi tornar-se um seriado dedicado a explorar a cultura pop e o universo nerd – em uma época que nenhuma produção o fazia. Todas as nuances, esquisitices e manias de Sheldon, Leonard, Howard e Raj conquistaram profundamente o público desde então. Não é atoa que está é a atração mais bem-sucedida da TV americana. Mas, mesmo após tantos anos, a série continuou a mesma e não entregou nada extraordinário.

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O Final de The Big Bang Theory

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Exceto por alguns poucos eventos, o final não é surpreendente. Tudo continuou como estava desde há muitas temporadas.

Um dos elementos mais problemáticos ao longo desses 12 anos, entre inúmeros erros e acertos, é a falta de amadurecimento, tanto do núcleo de personagens quanto do roteiro. É claro que a falta não refere-se a uma ausência completa. Afinal, alguns eventos importantes desencadearam mudanças significativas. É sobre isso, aliás, que trata-se o ultimo episódio do sitcom. Ao longo desses anos: Leonard e Penny casaram-se; Howard e Bernadette tiveram dois filhos; Raj encontrou, por um curto período de tempo, sua noiva; e, até mesmo, Sheldon descobriu seu amor por Amy. Mas, mesmo assim, The Big Bang Theory insistiu nos mesmos padrões, elevando ao extremo, o que o público já esperava.

Talvez a repetição constante seja uma característica do próprio Chuck Lorre, produtor da série. Assim como havia feito em outras séries, sendo elas: Two and a Half Man, Mike & Molly e, até a mais recente, Young Sheldon. Lorre insiste em manter as mesmas situações cômicas sendo, geralmente, forçado a mudá-las somente quando um evento externo acontece. Tal como quando Charlie Sheen foi retirado de  Two and a Half Man, obrigando o produtor a alterar todo núcleo da narrativa – apesar de repetir as mesmas situações para os personagens.

Foi exatamente essa insistência que assolou The Big Bang Theory. Desde a décima primeira temporada, por exemplo, que mais sofreu foi Bernadette. Ela sofreu uma dose “overpower” de irritabilidade. Tornou-se extremamente chata e raivosa, reforçando ainda mais as características da personagem. O mesmo aconteceu com os demais. Howard ficou cada vez mais dependente, Raj consagrou-se ainda mais carente, Leonard ficou mais impotente e Sheldon, bem, continuou mais apático. Tanto que, ao longo das duas últimas temporadas, as tiradas, antes engraçadas, soaram cada vez mais maldosas e repetitivas. É inegável que nenhuma novidade foi trazida à narrativa. E ainda que garantisse algumas risadas, tudo sempre foi igual a como começou. Em suma, os efeitos dos eventos não ressoavam aos personagens.

Nesse emaranhado de personalidades, quem menos brilhou foi Penny, interpretada por Kaley Cuoco. A personagem, que sempre fora a mais pró-ativa, sofre um “enxugamento” completo, tornando-se apenas “a que estava presente pela cena”. O que levou a principal incongruência no encerramento da série. Durante a temporada, a personagem afirma que não quer ser mãe e a questão beira ao absurdo para seus amigos, gerando até mesmo um problema em seu relacionamento. Um evento criado para “aquecer os personagens”. Onde, por todo arco desta breve trama, Penny serve apenas como alvo de algumas piadas e as discussões não são levadas a diante. Sendo esse o primeiro ponto que, no mínimo, demonstra uma ausência clara de evolução na série criando um loop contínuo de situações que não levam a lugar algum. Para, então, encerrar com a Penny querendo ter um bebê, simplesmente porque “agora ela quer ter um bebê”.

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Esse processo repetitivo pelo qual The Big Bang Theory viveu, aliás, expõe apenas que o sitcom continuou fazendo o mesmo humor que fazia há 12 anos atrás. As mesmas piadas, o mesmo formato e as mesmas reações. Elas simplesmente não couberam mais para os dias de hoje. Pelo menos, não para uma série que contou com diversas oportunidades de evoluir e um encerramento garantido. E, agora, em pleno final decidem resolver algumas “pontas soltas” do desenvolvimento na tentativa de demonstrar alguma evolução, como: ajustar o relacionamento do Leonard com sua mãe, concertar o elevador e melhorar o relacionamento do Sheldon com os demais.

Apesar do final confirmado, um luxo que muitas séries não possuem, The Big Bang Theory não tinha como propósito o seu encerramento. Era esperado, pelos produtores, algumas temporadas a mais nessa jornada. Entretanto, Jim Parsons, interprete do Sheldon, que fora o estopim para o fim. O ator entendeu que era o momento para dizer adeus e, obviamente, a série não poderia sustentar-se sem ele. Embora seja o mais fascinante e cativante, ainda quando tenha manias questionáveis, isso não significa que Sheldon tenha tido um desenvolvimento honrável, apenas que era o personagem com mais apelo entre o público.

Logo que começou a ser exibida, por exemplo, a série apresentou um personagem “exótico”. Sheldon Copper era alguém extremamente inteligente, sem qualquer habilidade e filtro social. O que, portanto, motivava os eventos cômicos da série. Afinal, ele era rude com seus amigos e, principalmente, alguém difícil de ter empatia ou qualquer sentimento humano positivo. Apesar do personagem enfrentar diversos eventos que o desafiaram e sempre o fizeram “repensar” suas atitudes, a constante continuou a mesma: ele parece ser exatamente o mesmo desde o inicio da série. Por diversas vezes, por exemplo, Sheldon constrói uma empatia com Amy para, novamente, ser rude com ela no último episódio ao surtar quando ela muda de visual.

Suas características tornaram-se parte da rotina e, de um tempo pra cá, foram até banalizadas. Um ciclo infinito de agir errado, pedir desculpas e agir errado de novo. Um personagem simples e preditivo ao público. A série tenta, nos últimos minutos, como resposta entregar uma tentativa de se redimir. Explicando as decisões do personagem como “amar em seu modo de ser”. Uma solução preguiçosa diante tantos anos de desenvolvimento. Ninguém esperava, é claro, um Sheldon completamente diferente do que o conhecemos, trasformado. Mas, esperávamos, sem dúvidas, algum aprendizado diante diversas situações que trouxeram um “pesar” ao personagem.

Não expresso, todavia, que as reações construídas sejam descabíveis. É compressível que, Sheldon, ao lidar com a mudança opte por ser rude com Amy naquele momento. Mas soa, novamente, repetitivo quando ele não se importa com o filho de Leonard, para, somente nos últimos minutos, rever a sua vida e desculpar-se – de novo. O discurso final de Sheldon embora de emocionante, isso é inegável, não é novo. Por várias e várias vezes o personagem já sofreu uma introspecção que nunca o levou a nada. Na prática, seguindo essa essência, caso a série continuasse, por exemplo, os comportamentos continuariam estáticos para nascer, quem sabe, uma infinita gama de novas situações “cômicas” com o bebê de Leonard e Penny.

The Big Bang Theory tenta, tenta para valer, encantar o espectador em diversos momentos mostrando que os personagens tem seu crescimento pessoal. Mas, então, deixa de lado constantemente as resoluções dramáticas em justificativas ao cômico que repete eventos para manter cada interprete na mesma essência. Sem personagens esféricos, apenas bidimensionais – aqueles definidos por uma única característica que não muda com o tempo.

É claro que todos os pontos levantados não tiram os méritos de The Big Bang Theory, só deixam o mesmo sabor e, após provar por tanto anos, era esperado aquela pitada de “algo a mais”. Talvez por isso Parsons considerou seu trabalho saturado. Mesmo assim, o sitcom funciona como deve. Garante boas risadas, expõe a cultura nerd e mantem viva as nossas relações com os personagens. Ainda que insista na narrativa e no modo de operar o cômico, não amarga a boca. Viveremos, sem dúvidas, com um imenso carinho e uma grande nostalgia dos melhores momentos de cada um dos personagens.

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